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As Áfricas

Muito deve-se falar em África do Sul no próximo ano, por conta da Copa do Mundo. O fim do apartheid, a vitória da liberdade pregada por Nelson Mandela, o interesse processo de perdão a quem não cometeu crimes bárbaros – ou não se conseguiria começar a constituir aquela nação – são fatos tão recentes que acabamos por apagar a terra romântica que tanto atraiu literatos como Hemingway e Karen Blixen (Isaac Dinesen).

Não conhecia Christopher Hope antes de me enredar na leitura de Os Amantes de Minha Mãe (Record), um de seus mais recentes romances. Sul-africano, nascido em 1944, ele sabe combinar o frescor das observações de um protagonista ainda jovem com a maturidade estilística de sua prosa.

Os amantes da mãe de Alex são aqueles  personagens românticos que acorrem a uma terra colonizada por exploradores brutos. Outros homens, que crescem com Alex, representam a nova África do Sul, os que tentam se adaptar a tempos sem disputas políticas e que são vítimas de novos flagelos, como a Aids.  Corrupção e  banditismo superam qualquer revolução, enquanto o capitalismo prospera e encanta os atuais donos da ordem. A mãe de Alex, filha de um irlandês que lutou na Guerra dos Boeres, é piloto de avião e transporta perseguidos políticos para os países onde mata leões e búfalos ao lado de  Hemingway e de Karen Blixen. Anárquica, irreverente e aventureira, jamais revela quem é o pai do filho, que não tenta reconhecer no continente devastado por guerras e Aids o seu lar.

Os clichês estão lá – os mineradores, os que tentaram ser aristocratas rurais em outros países e acabaram tendo que entregar terras para regimes socialistas, os que se vestem com roupas de safari como se fossem participar de um filme de John Houston. Desses retratos, Hope traça um contundente  olhar sobre os brancos que pensavam que ali seria o lar deles e que se sentem logrados com o fim do colonialismo.

Levou o café para uma mesa no canto e acomodou-se com um livro de emergência que guardava na bolsa. Os livros eram seus inseparáveis companheiros de todas as horas. E Kay possuía pilhas de livros de bolso em tudo que era canto e recanto de sua vida – bolsa, escritório, carro, cozinha, benheiro.  Cinco anos atrás (…) os livros serviam para distrair seu espírito do fato de que ela não tinha vida. Mas com o passar do tempo, Kay chegava à conclusão de que preferia a companhia dos livros à de pessoas. Para ela, ler não significava uma fuga, mas um estado ideal de ser.

Kay é um personagem secundário e importante na trama de O que os Mortos Sabem, policial de Laura Lippman, da Coleção Negra da Record. Tão bom que é difícil largar suas páginas para trabalhar. Já peguei livros assim, que nos fazem abandonar a vida para encontrá-lo.  Clarice Lispector já disse que, ao descobrir o prazer da leitura, não estava ali uma leitora e um livro, mas uma mulher e seu amante. Este romance é um dos amantes que a gente encontra fugaz mas intensamente.

Entrevistei Gustavo Franco para o Valor Econômico sobre seu novo livro, o delicioso Shakespeare e a Economia. Vale muito ler o estudo, que tem, no mesmo volume, um ensaio do economista Henry W. Farman sobre a economia nos tempos elizabetanos que Shakespeare mostrou em suas peças.

Ter ou não ter, eis a questão

Letras econômicas: Shakespeare foi muito mais que dramaturgo e poeta. Fez fortuna também como empresário, como revela novo livro de Gustavo Franco.

Empresário bem-sucedido que soube aproveitar a notoriedade obtida pelo arrojo de sua criação artística, o inglês William Shakespeare combinou como poucos o talento literário ao tino comercial. Sua incursão no ramo do entretenimento permitiu que deixasse à família valiosas terras e uma herança em espécie correspondente a 14 milhões de libras atuais, compatível com o padrão de um superstar contemporâneo. A estimativa sobre a fortuna de Shakespeare, que legou às filhas, no testamento, a quantia de 1,5 mil libras, é do economista Gustavo Franco, que apresenta um aspecto pouco conhecido no Brasil sobre a vida empresarial do dramaturgo em “Shakespeare e a Economia” (Zahar, 232 págs., R$ 36,00).


Franco: diretor e sócio dos teatros Globe e Blackfriars, Shakespeare ganhou muito dinheiro, comprou vastas propriedades e investiu em cotas de produção de trigo, cereais e lã

Para chegar aos valores atualizados da fortuna amealhada por Shakespeare, Franco não se limitou a multiplicar a quantia expressa no testamento pela inflação que cobriu o período da morte do escritor, em 1616, até os dias de hoje. “Em 400 anos, não podemos olhar apenas o índice inflacionário. Há que se considerar outros porcentuais de elevação do custo de vida, incluindo o PIB”, diz o economista. Levando em conta apenas a inflação de quatro séculos, Shakespeare teria deixado somente 78 mil libras para a família. No entanto, as 1,5 mil libras que constam no testamento surgem como uma soma milionária se comparadas aos salários anuais de artesãos e professores, que ficavam entre 15 e 20 libras.

“Conversei com muitos especialistas em Shakespeare, que confirmaram que ele era rico para a época, quase um aristocrata. Sua fortuna poderia ter sido multiplicada, mas as filhas, como as mulheres da época, dependiam dos investimentos que os maridos fariam. Uma delas era casada com um homem responsável, porém não tiveram filhos. A outra fez um péssimo casamento”, observa Gustavo Franco.

Os direitos autorais das 37 peças e 154 sonetos de Shakespeare poderiam gerar uma boa renda anual para seus descendentes, caso sua obra não fosse de domínio público. Em 2004, a revista “Forbes” calculou que herdeiros de William Shakespeare dividiriam uma renda anual mínima de U$ 15 milhões em royalties, apenas com a venda comercial de seus livros pelo preço de US$ 1 o exemplar. Isso sem computar as cópias compradas por escolas e bibliotecas nos Estados Unidos, onde, naquele ano, haviam sido vendidos 657 mil unidades de Shakespeare.

Embora pouco se saiba de concreto sobre a vida particular de Shakespeare, não houve dificuldade em encontrar material biográfico. “É provável que ele seja o escritor mais estudado pela humanidade”, cogita Franco. Afinal, segundo o crítico Harold Bloom, a única personalidade mais citada no Ocidente do que o personagem Hamlet é Jesus Cristo. Com traduções em 119 línguas, entre elas a linguagem de sinais para surdos e Klingon – o idioma de alienígenas da série de televisão “Jornada nas Estrelas” -, Shakespeare é o autor com maior número de peças levadas para o cinema, algo superior a 350 versões fiéis ou baseadas em suas criações.

Da extensa bibliografia consultada surge o homem de negócios que soube se adaptar às transformações de uma época em que o capitalismo engatinhava. O teatro era a principal, senão a única, diversão da população de Londres, onde viviam, em 1600, 250 mil pessoas. “Havia uma dúzia de teatros em Londres, todos funcionando cinco dias por semana. Às 14 horas, tocavam as trombetas, avisando que as sessões começavam. O teatro fazia parte da rotina dos londrinos, que lotavam as casas de espetáculo. Só o Globe tinha três mil lugares. A movimentação financeira que a atividade teatral proporcionava era imensa, mesmo sem patrocínios diretos”, conta Franco.

Segundo o estudo do economista, entre 1580 e 1648, foram montadas cerca de três mil peças na Inglaterra. Só 230 desses textos sobreviveram, entre eles 37 de William Shakespeare. As temporadas eram curtas. Os registros indicam que cada peça ficava em cartaz, em média, por dez dias, e as companhias faziam cerca de 200 apresentações por ano. Diretor e sócio de dois teatros, o Globe e o Blackfriars, Shakespeare ganhou muito dinheiro, comprando vastas propriedades de terra e investindo em cotas de produção de trigo, cereais e lã, entre outros produtos. Esse patrimônio incluía a New Place, a segunda maior residência de sua cidade, Stratford-upon-Avon, onde passou seus últimos anos.

A vida confortável de um autor que enriqueceu do próprio trabalho não tirou de Shakespeare a consciência crítica quanto à “hipocrisia reinante nos primeiros tempos do capitalismo”, acredita Franco. Em “O Mercador de Veneza”, Antônio, o personagem do título, faz fortuna com expedições de navegação. “Antônio explora a pirataria, a base onde se estruturava a recém-criada Companhia das Índias. Sua atividade é digna, mas a de Shylock, o judeu agiota, não. Ou seja, traficar escravos não é um pecado, cobrar juros, sim.”

A intenção inicial de Franco era escrever um prefácio ao estudo lançado em 1931 pelo economista americano Henry W. Farnam sobre os aspectos de economia no teatro de Shakespeare. “A análise de Farnam é encantadora. Eu queria fazer uma introdução porque ninguém aprende Shakespeare no colégio nem conhece o contexto sociopolítico de seu tempo. À medida que pesquisava, achava os mais diversos registros da vida financeira, alguns detalhando os custos de produção de espetáculos, além da contabilidade dos teatros que Shakespeare administrou. Foi quando a editora Cristina Zahar propôs juntar no mesmo volume o texto de Farnam e o meu”, conta o economista, cujo estudo recebeu o título de “A Economia de Shakespeare – O Retrato do Ca pitalismo quando Jovem”.

Este é o terceiro livro de Gustavo Franco abordando a economia em textos de literatos. O primeiro reunia ensaios de economia do poeta Fernando Pessoa; o segundo, crônicas de Machado de Assis sobre as transformações na economia brasileira com o fim da monarquia e o início da República. Debruçar-se sobre a produção dos escritores foram experiências absorventes, afirma o economista. “Virou algo para a vida inteira. Não consigo mais me livrar de Pessoa ou de Machado. E Shakespeare é um colosso”,completa Franco, modesto quanto a seu conhecimento sobre o dramaturgo: “Não li todas as peças; vi algumas encenações e muitos filmes, que ajudaram muito a compreender toda a sua criação. Afinal, o texto de Shakespeare foi escrito para ser falado, não para a leitura”.

Revisão histórica

Desconcertante como topar com um ex-amante, é dolorido reler um livro e não reconhecer nele o mesmo fulgor do primeiro encontro. Tal experiência vem me ocorrendo repetidamente nos últimos tempos. Algo que eu já sofrera ao retomar uma leitura de Monteiro Lobato e perceber que, sim, a linguagem caíra em desuso, mas não o enredo – prova é que o Sítio do Picapau Amarelo continua um sucesso como série de televisão.
O vergão mais recente havia sido causado na releitura de Arranca-me a Vida, de Angeles Mastretta, um dos livros que mais me impressionou quando li, na década de 80. Quase 30 anos depois, peguei-o para confrontar com o filmeco mexicano que fizeram baseado na história. Desta vez, não me causou qualquer impacto, porém eu talvez buscasse palavras com uma força esmaecida pelas imagens da tela ainda gravadas em minhas retinas.
E aí, chego ao terceiro gosto doce-amargo, ao pegar 1968 – o ano que não terminou (Planeta). Neste intervalo de 40 anos, ele se acabou, sim, embora sobrevivam aqueles personagens, retratados novamente pelo Zuenir Ventura, ano passado, em 1968 – O que fizemos de nós. Li a primeira vez na década de 80 também. Adorei, principalmente porque anos antes havia devorado Os Carbonários, de Alfredo Sirkis, e O que é isso, companheiro, de Fernando Gabeira. O livro de Zuenir me parecia mais objetivo, na época.
Hoje, não. Parece mais o relato sobre o que um grupo de pessoas viveu naquele tempo. Algo que o segundo livro assume no título e ainda traz excelentes observações sobre as mudanças sócio-político-culturais dessas quatro décadas. Como 1968 virou realmente história, fico com uma leitura mais abrangente, o livro de Regina Zappa e Ernesto Soto 1968 – Eles só queriam mudar o mundo (Zahar). Escrito quase em forma de almanaque, contando mês a mês o que ocorreu naquele ano em diferentes campos, tanto político, cultural como esportivo, o livro conta ainda com a colaboração de uma gama diversa de jornalistas, alguns testemunhas dos acontecimentos, outros sequer nascidos, como Eduardo Graça e Pedro Butcher.
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Os livros do Zuenir não sairão de minha prateleira, claro. Passarão pelo crivo de jovens leitores, sequiosos de compreender aquele momento por quem viveu e fez a hora, sem esperar acontecer. Outros desapontamentos virão, tenho certeza. E alguns livros ganharão força a cada releitura. Se a dor for intensa, a cura sempre pode estar em Machado, Garcia Marquez ou Vargas Llosa. Ou Cortazar. E, eternamente, Manuel Bandeira.

Obras Abertas

Literatura: Escritores cedem ao impulso de retificar seus trabalhos e acabam por produzir novos, nem sempre assim reconhecidos.
Por Olga de Mello, para o Valor, do Rio
30/10/2009

Considerar concluída uma obra é, para muitos artistas, mais difícil do que concebê-la ou executá-la. O pintor francês Pierre Bonnard (1867-1947) costumava driblar a vigilância dos locais onde suas pinturas eram expostas para retocá-las. Detido em flagrante, de pincel em punho em um museu, candidamente Bonnard explicou que tinha o direito de aprimorar o quadro – que pertencia à instituição havia mais de dez anos.

Sem a mesma ousadia – ou excentricidade – de Bonnard, não são poucos os artistas que cedem ao impulso de retificar seus trabalhos. Para os escritores a oportunidade pode surgir a cada nova edição, levando, em alguns casos, à geração de novos livros que abordam o mesmo tema, complementando dados, no caso de não ficção, ou criando tramas a serem desenvolvidos em outros volumes. Em 1990, a francesa Marguerite Duras decidiu voltar a contar a história de seu primeiro amor ao saber da morte do ex-namorado. Seis anos antes, ela conquistara público e crítica com “O Amante”, narrado em primeira pessoa. Na segunda versão, “O Amante da China do Norte”, há um distanciamento maior dos personagens, por meio da narrativa em terceira pessoa. A oportunidade de constatar diferentes processos de produção literária não levou “O Amante da China do Norte” a arrebatar tantos leitores quanto o primeiro romance.

O escritor Godofredo de Oliveira Neto experimentou uma situação semelhante à de Marguerite quanto à recepção do segundo texto sobre uma mesma história. Seu último romance, “Marcelino” (Imago), entrou na lista dos 50 selecionados para o prêmio Portugal Telecom deste ano. “Quando souberam que era a nova versão de um livro já publicado, fui avisado de que estaria fora da disputa”, conta Godofredo. Em 2000, ele lançou “Marcelino Nambra, o Manumisso” (Nova Fronteira), saga ambientada na década de 40, escrita sem parágrafos ou pontuação. Chamado a conferir um roteiro cinematográfico baseado no livro, percebeu que as ações de um personagem eram atribuídas a outro. Decidiu, então, reescrever a história de maneira mais tradicional.

“Há mudanças significativas no desenrolar do enredo, pois os personagens ganharam detalhes necessários àquele estilo, com mais descrições de ambientes, de comportamentos”, explica Godofredo, que não pretende retomar outros de seus livros para novos exercícios literários. “É muito desgastante reescrever a mesma história sob outra ótica. As primeiras versões são menos sofridas.”

Resguardando ao autor o direito de mexer em sua obra sempre que considerar necessário, o escritor Flávio Carneiro teme que as revisões constantes se tornem obsessão. “O Drummond dizia que a gente publica para ficar livre daquela história. Existe um limite. Se pudesse, reescrevia tudo o que já publiquei, saía burilando. Mas não teria a coragem do Murilo Rubião, que chegou até a trocar nomes de personagens em diferentes edições de seus livros”, observa Carneiro, que passou dois anos montando um novo trecho para o policial “O Campeonato” (Rocco, R$ 38,50), publicado originalmente em 2002 pela Objetiva.

Antes de retomar o texto, lançou a novela gótica “A Confissão” (2006). Os dois romances e a ficção científica “A Ilha” (título provisório), que ainda está escrevendo, integrarão a “Trilogia do Rio de Janeiro”. “O enredo é o mesmo, mas consegui melhorar diálogos e tornar ‘O Campeonato’ mais enxuto”, diz Carneiro, que já havia reescrito o infantil “Acorda Rita” para um público de adolescentes.

Retomar personagens e interferir em textos já publicados pode ser menos angustiante que uma revisão, acredita o escritor Raimundo Carrero, que volta a temas e recria episódios com mais destreza do que corrige o que escreveu em outras épocas de sua vida. Pedir a um autor que reveja texto escrito na juventude é “uma crueldade”, afirma Carrero, que há quatro anos foi convidado a acompanhar a nova edição de seus três primeiros romances, fazendo pequenas alterações em um deles.

“Não quis reformar os pontos de vista do garoto de pouco mais de 20 anos que eu era quando escrevi aquelas histórias. Erros e equívocos fazem parte da carreira de um artista. Uma obra nunca se acaba e nunca vai se acabar. Os personagens podem se desdobrar e se revelar em diferentes livros”, diz o autor, que explora situações sob ângulos de diferentes personagens nos quatro romances que compõem “O Quarteto Áspero”, cujo último volume, “Minha Alma É Irmã de Deus” (Record), foi lançado há três meses.

O jornalista Zuenir Ventura preferiu criar uma sequência para “1968 – O Ano Que não Acabou” a atualizar o original, lançado há duas décadas. “Revisitei personagens e situações para saber como se encontravam 40 anos depois, e escrevi então o ‘1968 – O Que Fizemos de Nós’ (Planeta)”, conta Zuenir, que não acreditava no sucesso do tema. “Achava que teria uma edição apenas, se tanto.” Atualmente está na 43ª reimpressão. Apesar do interesse, ele não pretende voltar a abordar aspectos inexplorados daquela época. “O livro já inspirou a série de televisão ‘Anos Rebeldes’, de Gilberto Braga. Um de seus capítulos também foi adaptado para a TV francesa. Não, espero não mexer mais com ‘1968′”, comenta o jornalista.

A pressão por novas versões pode chegar antes de diversas reimpressões. Cerca de dois meses depois do lançamento de “1808″ (Planeta), em 2007, Laurentino Gomes começou a ser instado a condensar as 418 páginas para um volume que atraísse jovens leitores. “Era um tal de ouvir pais dizendo que gostariam que os filhos lessem o livro, mas que nenhum garoto se interessaria por um calhamaço…”, conta Laurentino, que contratou uma equipe para ilustrar e reescrever o texto em linguagem juvenil. Reduzido a 146 páginas, “1808″ foi adotado como material paradidático, vendendo cerca de 40 mil exemplares. Seu próximo livro, “1822″, que trata da Independência do Brasil, deverá ser lançado pela Ediouro com formatos para adultos, jovens, versão em áudio e em DVD.

O espanhol Javier Moro, que acaba de preparar um novo epílogo para “O Sári Vermelho” (Planeta), uma biografia de Sonia Gandhi, justifica a nova versão por uma necessidade de registro histórico. “Quis incluir a vitória de Sonia Gandhi e de seu filho Rahul nas eleições de maio de 2009″, relata Moro, que não deve retomar o texto. “Utopicamente, um trabalho nunca terminaria até a morte do autor, porque sempre surgem novas ideias, novos enfoques, novos retoques…. Não podemos deixar o processo criativo se tornar algo mais obsessivo-compulsivo do que já é.” Para Ângela Dutra de Menezes, que incluiu mais 50 páginas na nova edição de “O Português Que Nos Pariu” (Record), o autor sempre buscará aprimorar o texto. “O limite à obsessão é dado no contrato com as editoras, que, geralmente, permitem apenas três revisões a cada reimpressão. Se o autor pudesse mexer mais ainda, o trabalho seria infindável”, acredita Ângela.

Quando a revisão falha, mas não tarda

Até depois de morto, o romancista mexicano Juan Rulfo conseguiu corrigir a edição de sua obra-prima, o magistral “Pedro Páramo”. Em 2005, a edição comemorativa dos 50 anos de lançamento da novela incorporou alterações que o escritor fizera ao longo de décadas. Embora meticuloso, o colombiano Gabriel García Márquez, Prêmio Nobel de Literatura de 1982, só foi perceber um erro em “Cem Anos de Solidão” (Record) quando fez a revisão para a edição comemorativa dos 40 anos do lançamento do romance, em 2007.

“Durante esse tempo todo, nem os tradutores notaram a troca de nome de duas personagens, a amante, Petra, e a mulher, Fernanda, do Aureliano Buendía Segundo. Passou por, no mínimo, 50 milhões de leitores”, lembra Eric Nepomuceno, tradutor da nova versão de “Cem Anos de Solidão” e de outros oito livros de García Márquez, um autor cuidadoso com revisões das próprias edições – fez 300 alterações da primeira para a segunda impressão de “Notícias de um Sequestro” – que não gosta, porém, de acompanhar as traduções.

“Quando peço esclarecimentos, ele diz que já basta ter que aturar tradutor de inglês, francês, alemão”, conta Nepomuceno. Por isso, na biografia de García Márquez, “Viver para Contar”, foi mantido um trecho que o próprio escritor, quando confrontado pelo tradutor, não soube explicar. Na primeira vez em que vê o mar, Márquez o descreve como “uma vasta extensão de águas verdes, onde flutuava um mundo inteiro de galinhas afogadas”.

“O revisor não se conformou com aquelas galinhas afogadas e descobriu que existe apenas no Caribe uma espécie de peixe chamada peixe-galinha. Gabo riu muito, deu razão ao revisor, mas disse que não pensara nos peixes-galinha nem se lembrava bem por que escrevera aquilo”, recorda-se o tradutor, que é amigo do escritor. (OM)

Na época da Bienal do Livro, fiz, para o Tamoio Notícias, este perfil com o cordelista Abdias Campos. Foto de Angelo Antônio Duarte.abdiascampos111709_aad

Autor de mais de 100 livros, o paraibano Abdias Campos trocou uma carreira sólida como administrador de empresas para dedicar-se às incertezas da literatura de cordel há oito anos. “Dá para viver da arte, com a graça de Deus”, garante o simpático Abdias, que já participou de três bienais do Livro no Rio de Janeiro e uma em São Paulo. Em seu estande, de autor independente, ele organiza os coloridos livrinhos que vende a dois reais. A cada bienal, esgota os 4 mil volumes que traz de Recife, onde vive, custeando passagem, hospedagem, aluguel de espaço, e ainda “levando algum no bolso”, brinca.

Nascido em Olho D’Água dos Caboclos, próximo à localidade de Amparo, no sertão da Paraíba, Abdias Campos se considera um predestinado à literatura. “Fui trazido ao mundo pela parteira Zefa Canário, nasci ouvindo versos numa região toda de poetas. Quem saiu daquelas terras virou médico, advogado, engenheiro. Quem ficou, foi vaqueiro, fazendeiro. Mas todos continuam poetas”, diz Abdias, que foi para Recife estudar Administração de Empresas. Chegou a tentar empregar seus conhecimentos em uma fazenda que herdou. “Eu agi como poeta, não como administrador. Derrubei cercas, abri estradas e acabei vendendo tudo para fazer meu primeiro LP”, conta.

Para viver da arte do cordel, Abdias investe cerca de R$ 5 mil em eventos como a Bienal do Livro. É dali que saem importantes contatos para palestras e shows. “Já rodei Santa Catarina inteira com meu show de música e poesia em cordel, pelo circuito SESC. Conheci na Bienal um diretor do SESC que se interessou por meu trabalho e, desde então, não parei mais de trabalhar, seja apresentando espetáculos, seja fazendo cordel para publicidade”, conta Abdias, que nunca estudou música ou literatura formalmente. “Não quero perder o tom rústico de minhas composições, por isso não faço faculdade de Música ou Letras. Já imaginaram que horror seria ter um Pavarotti cantando repentes?”.

Há umas duas semanas saiu este perfil que fiz sobre o Evando dos Santos, da Biblioteca Popular Tobias Barreto, no Tamoio Notícias, um tablóide que circula no Rio há cerca de dois meses, destinado à grande colônia nordestina instalada em terras cariocas.

Foto de Angelo Antônio Duarte

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Evando dos Santos recusa-se a reconhecer o significado da palavra dificuldade. Leitor compulsivo e apaixonado, ele aprendeu a ler adolescente, há 11 anos montou a Biblioteca Comunitária Tobias Barreto de Menezes, na garagem de sua casa, na Vila da Penha. Hoje, o acervo de 14 mil livros ocupa o primeiro andar de um prédio de três pavimentos projetado por Oscar Niemeyer e construído com recursos do BNDES. Tudo obtido graças ao empenho deste sergipano de 49 anos, que não se acanha em lutar para fomentar a leitura no País.

O entusiasmo de Evando é tão contagiante que ele sempre obtém apoio para manter a biblioteca e ainda contribui para aumentar o acervo de outras. Já enviou cerca de 20 mil livros para 26 bibliotecas em três estados nordestinos, no Amazonas, em cidades da Baixada Fluminense e até para Angola. Só para Sergipe foram 14 mil livros, enviados aos municípios de Aquidabã, Tobias Barreto, Malhada dos Bois, Tomar do Geru, São Cristóvão, Gracho Cardoso e Estância. “Um dos diretores da Transportadora Cometa ofereceu a remessa dos livros gratuitamente. Este tipo de atitude é que nos dá alento a continuar trabalhando para disseminar o amor pela leitura”, diz Evando, que atualmente paga as contas de água, eletricidade e telefone da biblioteca graças às doações de amigos e vizinhos, desde a morte de sua mãe, Zelita, no primeiro semestre deste ano.

“Ela era a nossa grande patrocinadora, me passou a paixão por ler”, conta Evando, que decidiu iniciar a biblioteca quando ganhou 50 livros de um cliente. Levou-os para casa, juntou com outros e avisou aos vizinhos que abrira uma biblioteca. Não havia prazo para devolução, nem registro de saída dos volumes. A notícia se espalhou e a garagem acabou ficando pequena. Foi quando começou a trabalhar para construir o prédio em terreno que era da família.

“Doamos o terreno à Biblioteca, que hoje é uma entidade filantrópica. Depois de conseguir o financiamento do BNDES, assistindo a um programa de televisão com o arquiteto Oscar Niemeyer, telefonei para a produção e pedi um projeto para a nova sede”, lembra Evando.

Atualmente, a biblioteca recebe cerca de 20 visitantes por dia. Os livros foram organizados por tema, nacionalidade ou naturalidade do autor. Evando jamais aceitou uma catalogação profissional. “Bibliotecários e arquivistas já se ofereceram para arrumar as estantes, mas eu quero que ninguém se intimide com os livros. O único compromisso é gostar de ler”, diz Evando.

A Biblioteca Comunitária Tobias Barreto fica na Rua Engenheiro Augusto Bernachi, 130, na Vila da Penha. Telefone: 2481-5336

Entre dois amores

Por Olga de Mello, para o Valor, do Rio
16/10/2009
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Uma plantação de café é algo absorvente e se gruda nas pessoas, não havendo nunca momentos ociosos: está-se sempre ligeiramente atrasado no trabalho a fazer”.

A Fazenda Africana, Isak Dinesen

A descrição da celebrada escritora dinamarquesa Isak Dinesen bem poderia ser assinada por Frances de Pontes Peebles. Há cinco meses administrando a fazenda de café de sua família, em Taquaritinga do Norte, no Planalto da Borborema, em Pernambuco, Frances não tem nenhuma pretensão de tornar-se uma Dinesen dos trópicos. “Espero que minha fazenda seja mais bem-sucedida do que a dela. Na literatura, minha ousadia não chega a tanto”, disse em entrevista por telefone ao Valor, na semana em que chegou às livrarias brasileiras a tradução de seu romance de estreia, “A Costureira e o Cangaceiro” (Nova Fronteira, 624 págs., R$ 69,90).

Isak Dinesen era o pseudônimo de Karen Blixen (1845-1992), que morou por 16 anos no Quênia, onde teve uma fazenda de café. Desistiu da empreitada em 1931 e voltou para a Dinamarca para dedicar-se à literatura. O autobiográfico “A Fazenda Africana” tornou-se seu livro mais conhecido, principalmente depois da versão cinematográfica de Sidney Pollack, com Meryl Streep no papel da escritora. Gostava de escrever em inglês e depois os textos eram vertidos para seu idioma nativo. Outro de seus contos a lhe render popularidade por adaptação para o cinema foi “A Festa de Babette”, de Gabriel Axel.

Além da dedicação ao café e à literatura, Frances, como a dinamarquesa, também escreve em inglês. Nascida no Recife há 30 anos e definindo-se como alguém com “um pé no Brasil e outro nos Estados Unidos”, a brasileira sente que sua fluência em português está restrita à fala – com um forte sotaque pernambucano. “Não tenho segurança para me aventurar em textos maiores que os de cartas ou e-mails”, explica Frances, que não interferiu na tradução de Maria Helena Rouanet para o romance. Na versão original fez questão de inserir termos em português.

“Não existe tradução para alpercatas, cangaço ou jagunço. Não são sandálias de couro, bandidos nem vaqueiros, têm outro significado. Então, pus notas explicativas e deixei tudo como se fala aqui, até porque pretendia reproduzir um pouco da musicalidade do palavreado polissilábico português”, conta Frances, que viveu no Brasil até os 5 anos, quando a família se mudou para os Estados Unidos para acompanhar o pai, David Peebles, engenheiro americano.

O contato estreito com a família materna, em Pernambuco, foi sua base para criar uma história genuinamente brasileira. Seguindo a saga de duas irmãs órfãs e costureiras, Frances mostra tanto o Brasil urbano, por meio da sociedade do Recife da época, que buscava acompanhar a modernidade europeia no período anterior à Segunda Guerra Mundial, e o agreste nordestino, onde o tempo resistia às novidades. Depois de formar-se em Letras pela Universidade do Texas, recebeu uma bolsa da Fundação Fulbright para pesquisar o cangaço e escrever um romance histórico totalmente fictício, em que o único personagem real é Getúlio Vargas. “Até os sobrenomes são inventados, pois não queria nenhuma associação com gente que viveu na região.”

O fascínio pelo universo do cangaço vem da infância. Em Taquaritinga ouvia boatos sobre vizinhos que teriam sido cangaceiros. “Eu tinha um medo danado de um tal de seu Vitorino, que teria sido do bando do temível Antonio Silvino. Hoje o cangaço é folclore e os cangaceiros têm aura de heróis, mas quem viveu aqueles tempos sentia pavor deles. Por mais que os cangaceiros fizessem frente ao poder dos coronéis, eles eram perigosos. As famílias escondiam as filhas, já que muitas meninas de 14 anos eram sequestradas pelos cangaceiros. E, mesmo que não sofressem violência alguma, eles ainda tinham que hospedar ou ceder as casas para os bandos”, contou Frances.

A pesquisa histórica à qual se dedicou durante quatro anos e meio incluiu entrevistas com moradores de Taquaritinga, que eram jovens na época do fim do cangaço: “Os relatos deles forneceram o tom de veracidade necessário ao romance. Eu queria criar os meus cangaceiros, que têm características de gente que existiu realmente, só que tudo bem misturado, de forma a ninguém ser reconhecido. As lembranças dessas pessoas me ajudaram a fazer a transposição para aquele mundo que acabou”.

Traçando um paralelo entre a trajetória das irmãs – uma que vive um casamento de conveniência no Recife, a outra, levada por cangaceiros, ganhando notoriedade por sua força dentro do bando -, Frances quis mostrar que as normas rígidas pautavam o comportamento de todos os grupos sociais. “Qualquer traição era punida com a morte. O adultério era proibido. Pouco se sabe do cotidiano das mulheres do cangaço, que entregavam os filhos recém-nascidos aos padres no sertão para que fossem criados por outras famílias. Era uma vida muito perigosa, arriscada, porém a angústia também existia para quem sofria o preconceito da sociedade rica no meio urbano, obrigada a cumprir rituais de luto, mesmo que não sentisse a dor da perda pela morte”, relatou.

A versão brasileira de “A Costureira e o Cangaceiro” exigiu um corte de quase cem páginas. Frances Peebles reconhece que o romance, atualmente com 600 páginas, ainda é bastante extenso. Mesmo assim, conquistou o público feminino. “Apesar do tema, o livro foi apontado como um dos favoritos pelas leitoras da revista ‘Elle’, o que me surpreendeu”, contou a escritora, que não revela o próximo tema a explorar literariamente. Por ora, a prioridade é a fazenda em Taquaritinga, onde pretende permanecer, no mínimo, por cinco anos – o prazo necessário para estabelecer a plantação de café orgânico.

Ela garante que não seguirá o exemplo de Isak Dinesen, narrando sua vivência na direção da fazenda: “Escrever não ficção é abrir sua intimidade, que nem sempre é tão interessante assim. Mexemos com máquinas, andamos o dia inteiro. Estamos ainda aprendendo a tocar o negócio”, explica Frances, que tem como companheiros na empreitada o marido, a irmã e o cunhado.

O trabalho incessante limita a vida social dos dois casais, que ocupam casas diferentes no mesmo terreno. Levantam-se pouco depois do nascer do sol e passam o dia coordenando as atividades dos 17 empregados, entre elas a coleta de mel de colmeias de abelhas e os cuidados com as criações de porcos e de cabras, que fornecem os fertilizantes naturais para o solo. Acabam de plantar quatro mil mudas de pau-brasil na região. Segundo Frances, não há nenhum arrependimento por haver trocado a sofisticada Chicago pela pacata Taquaritinga: “Aqui é minha casa, minha referência de infância, o lugar onde pretendo envelhecer. Queremos criar mais do que uma fonte de renda para a família, trazendo uma inspiração para o desenvolvimento sustentável da região. Tudo é novidade e aprendizado. A vida ficou mais simples, não há televisão na fazenda. Mesmo assim, não há como nos isolarmos do mundo. Temos internet”.

Nobel

Nada posso falar de Herta Müller. Só li um conto dela, numa coletânea de contos alemães.
Mais uma vez, esnobaram a Joyce Carol Oates e o Vargas Llosa, que nem era cotado, mas está sempre na lista.
Este ano, não sei se gostei do Nobel. 20091009090034339288i

Hoje, no Valor Econômico, saiu esta matéria minha. Payback é ótimo!

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A crise financeira internacional mal havia estourado, em outubro do ano passado, quando a escritora canadense Margaret Atwood lançava “Payback – Dívida e o Lado Sombrio da Riqueza” (Rocco, preço ainda não definido) – que chega nos próximos dias às livrarias brasileiras. Originalmente uma coletânea de cinco palestras tratando do endividamento sob a ótica da literatura, da psicologia, da teologia e até da ecologia, o livro foi um sucesso de crítica e de vendas, possivelmente impulsionadas pela situação da época. A autora cansou-se de repetir que não havia antevisto nenhuma derrocada econômica e o lançamento coincidira com uma exigência da editora.

Ela própria já havia escrito sobre o colapso financeiro na véspera da invasão do Iraque. “A crise era certamente previsível e muitos a previram. Guerras, principalmente as que têm campanhas como a de Napoleão na Rússia, estão entre as primeiras causas de endividamento das nações”, disse a escritora em entrevista ao Valor, durante sua viagem à Europa para promover o último livro “O Ano da Inundação”.

Reconhecida como uma das principais personalidades literárias da atualidade, vencedora do Booker Prize pelo romance “O Assassino Cego”, aos 68 anos Margaret Atwood transita com destreza entre diferentes gêneros ficcionais, chegando a mesclar, na mesma novela, histórias paralelas de suspense e ficção científica.

No novo romance ela cria uma distopia, como já fizera com a sociedade totalitária apresentada em “O Conto da Aia”. Desta vez, o mundo assolado por desastres climáticos é o cenário descrito. Militante ambiental respeitada, ela se cercou de cuidados para que a turnê promocional do novo livro fosse o “mais verde possível”. Adotou alimentação vegetariana, cuidou de hospedar-se ou de fazer eventos em locais que tivessem uma política de conservação ambiental, atravessou o Atlântico Norte de navio e preferiu usar trens a automóveis, a fim de reduzir as emissões de carbono, já que “essas viagens tiram energia não apenas do autor”.

A preocupação com as agressões ao planeta vem de berço. Na infância, viveu com a família em reservas florestais. Ressalta, no entanto, que não era uma fuga da vida urbana, apenas a consequência do trabalho do pai, biólogo. “Não ficávamos nas florestas durante o inverno, não era uma utopia. No entanto, há evidências de que crianças que crescem sem contato com a natureza têm problemas de desenvolvimento. Isso faz sentido se considerarmos que nossa história neste planeta foi sempre ligada à natureza. Adão e Eva foram expulsos de um jardim, não de um edifício!”, diz a escritora, que, depois do casamento com o romancista Graeme Gibson, chegou a morar por alguns anos em uma fazenda. Voltaram para Toronto quando a filha do casal entrou na escola e perceberam que ela perderia muitas horas em trânsito até chegar ao colégio.

A militância ambiental também perpassa “Payback”, já que a humanidade, segundo a autora, está em dívida com o planeta. O interesse em conservar a natureza aos poucos substitui os ideais yuppies de fama e riqueza, acredita. “De alguma maneira, a maré mudou. Um grande número de pessoas desistiu de enriquecer para salvar o planeta. Alguns até tentam combinar esses dois sonhos. O problema é que o dinheiro sozinho é inútil. É apenas um símbolo que podemos traçar por produtos reais e perde seu valor no momento em que as reservas de alimento se reduzem. Ninguém pode comer papel e metal”.

As armadilhas do consumo fácil também já não conquistam tanta gente. “Já existe uma mudança no comportamento financeiro. As dívidas pessoais têm se reduzido, há esforços para acabar com a inadimplência”, observa Margaret.

Embora alerte no livro para a relação quase infantil que boa parte dos consumidores tem quanto à utilização dos cartões de crédito – contraindo compromissos que não podem ser honrados no futuro, buscando na compra a satisfação de um prazer imediato -, a escritora não encara a dívida como um mal em si: “Usada construtivamente, a dívida ajuda a sociedade crescer. Cartões de crédito são excelentes, desde que pagos regularmente. Apenas quando não há nenhum tipo de restrição ou regras justas é que os credores se tornam vendedores, incentivadores de novas dívidas, obtendo lucros por meio do prejuízo de quem não pode pagar o que deve. E então surgem as falências e derrocadas do tipo a que acabamos de assistir”.

Criada na década de 40, Margaret recorda em “Payback” que falar sobre dinheiro era quase um tabu. A discrição sobre o assunto – e em relação a outros temas como sexo e religião – foi gradualmente substituída por uma exuberância para tratá-los. Até chegar a crise de 2008. “A partir daí, começou-se a falar em dinheiro com desânimo”, comenta a escritora, uma crítica da ostentação da riqueza, mesmo se usada em prol da arte ou de causas humanitárias. “É apenas uma forma de marcar status. Em algumas sociedades, quem faz doações é mais respeitado. Talvez os Medici patrocinassem artistas porque genuinamente amavam a arte, que também é um símbolo de status. É como se dissessem: olhem quanto eu posso gastar.”

O interesse pelos diferentes aspectos da dívida surgiu a partir da observação de “um tema que está à nossa volta, é só começar a olhar”. A exploração do assunto por programas de televisão mostrando famílias destroçadas por causa do comportamento irresponsável de um de seus membros, livros de autoajuda e anúncios de especialistas em finanças pessoais que ensinam o devedor a se recuperar financeiramente chamaram a sua atenção. Isso denotaria que o endividamento teria “superado sua fase inofensiva (…) e voltado a ser pecado”, tomando um posto já ocupado pela gordura, pelo cigarro, pela bebida e pela prostituição.

Ao buscar na literatura tramas que abordassem a preocupação com dinheiro – ou com sua falta -, Margaret Atwood constatou que o tema era mais recorrente do que enredos que privilegiavam envolvimentos amorosos. Os registros sobre negociações patrimoniais aparecem nas mais antigas manifestações literárias da humanidade, incluindo aí a “Bíblia”. A pobreza e o endividamento atormentam os personagens em quase todos os gêneros literários, notadamente os românticos, e são atraentes para boa parte dos leitores, diz a escritora.

As desventuras financeiras de personagens, como em “O Moinho do Rio Floss”, de George Elliot, ou as de quase todas as heroínas românticas de Jane Austen, passando pelo “Conto de Natal”, de Charles Dickens, têm função de movimentar os enredos, mesmo quando tratam do desespero e da vergonha dos devedores.

“Sexo e amor [como temas] são mais interessantes quando se é jovem, porque você ainda está procurando por eles e não sabe como vai se desenrolar sua história pessoal. Na época em que se chega aos 70 anos, se você teve sorte, é capaz de ter uma visão mais cósmica”, afirma. De acordo com ela, o amor e o dinheiro estiveram firmemente entrelaçados durante a era romântica. “Até o poeta John Keats escreveu ‘O amor numa cabana a pão e água é – que o amor nos perdoe – cinzas e poeira’. O melhor para uma jovem era se casar com um homem rico que amasse; o pior que poderia ocorrer era o casamento com um homem pobre e não amado. Riqueza com amor era ruim, pobreza com amor, aceitável, mas não a miséria. Ter um emprego não era possível para membros das classes médias ou das classes médias altas, que não tinham habilidades. Em meu romance ‘O Assassino Cego’, esse dilema é encarado por Íris e Laura”, lembra.

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