O escritor pernambucano Raimundo Carrero , na abertura de A minha alma é irmã de Deus (Record, R$ 34,90), aconselha que o romance seja lido entre 14 e 18h, “comungando-se da lenta passagem entre a sombra e a luz (…) nesse instante em que as personagens ficam repletas de solidão, silêncio e sabedoria”. Na época do lançamento do livro – que lhe rendeu os prêmios Machado de Assis, da Fundação Biblioteca Nacional, e o São Paulo de Literatura, em 2010 -, ele me falou em entrevista acreditar que naquele horário o leitor usufruiria mais da doçura e pureza da protagonista, uma jovem que busca a santidade ao ligar-se a uma seita religiosa. Sem a mesma propriedade de Carrero, mas imaginando que dias chuvosos em feriados – conforme a previsão do tempo estima para boa parte do País – induzem a apreciar leituras à tarde, no embalo da rede, seguem algumas sugestões aqui.
- Biografia – Sangue, Ossos & Manteiga – a educação involuntária de uma chef relutante (Rocco, R$ 39,50), de Gabrielle Hamilton, que tem mestrado em Ficção, é tão delicioso quanto os pratos que a notabilizaram, à frente do restaurante nova-iorquino Prune. Antes de escolher os rumos profissionais, ela teve experiências pouco convencionais, passando a infância no campo, com os quatro irmãos. Todas as recordações têm um registro sensorial – principalmente olfativo – de uma vivência dolorosa a partir da separação dos pais e da distante relação com a mãe.
História – Portugal e a Revolução Global (Nova Fronteira, R$ 59,90), do antropólogo inglês Martin Page, mostra a contribuição dos navegadores portugueses da Escola de Sagres para tornar o mundo mais próximo. O Brasil não merece muita atenção do autor, que alardeia a presença portuguesa na Índia e na China. Mesmo assim, o livro é interessante por trazer a imagem de uma nação cientificamente arrojada, diferente da visão brasileira sobre os colonizadores.
Auto-ajuda - Jogue fora 50 coisas – Livre-se da bagunça, simplifique seu dia a dia e torne sua vida mais feliz (Ediouro, R$ 32,90) deu à autora Gail Blanke o prêmio Books for a Better Life 2010. A limpeza de armários e gavetas abarrotados de inutilidades à espera de aproveitamento num futuro que jamais chega ajuda muita gente a tocar a vida para frente, acredita Gail, uma especialista em motivação, que propõe a reciclagem de alma ao leitor.
Ensaio – Darwin vai às compras – Sexo, Evolução e Consumo (BestBusiness, R$ 49,90), analisa o quanto substituímos a simplicidade da sobrevivência pela ânsia de acumularmos produtos que nos prometem felicidade, bem estar, conforto, amor e afeto. Geoffrey Miller, especialista em psicologia evolutiva, trabalhou como consultor em marketing para grandes conglomerados e faz uma análise instigante sobre o narcisismo, a futilidade e as frustrações da vida moderna.
Policial – Viva para Contar (Novo Conceito, R$ 34,90), de Lisa Gardner, traz três mulheres numa trama de suspense e psicose, ambientada em Boston. Uma é policial, outra é a sobrevivente de uma chacina e a terceira, uma mãe extremamente dedicada ao filho. A cultura norte-americana e o pavor de que o inimigo esteja dentro da casa de cada um compõem o pano-de-fundo do enredo que parece desenrolar-se na vizinhança do leitor.
Romance histórico – O poder erótico – diário e cartas de Cristina Vasa, rainha da Suécia, e do Padre Antônio Vieira (Reler, R$ 39,90), da historiadora Gloria Kaiser, parte da compilação da correspondência entre dois controversos e cultuados personagens reais. O jesuíta português Antônio Vieira, que passou a infância e morreu no Brasil, foi um dos mais celebrados escritores da Igreja, enquanto Cristina abdicou do trono sueco depois de converter-se ao catolicismo. Perseguido pela Inquisição, Vieira exilou-se na Suécia por seis anos, sob proteção de Cristina, até o arquivamento do processo a que respondia.- Clássico – Um serial killer assombra Paris no século XVII na trama arrebatadora que fez de A Senhorita Scuderi (Civilização Brasileira, R$ 29,90), de E.T.A. Hoffmann, a primeira novela policial alemã. Nobres são o alvo do assassino, um psicopata de outras eras, descrito de forma magistral por Hoffmann, um dos pioneiros da literatura fantástica.
Romântico – A última carta de amor (Intrínseca, R$ 29,90), de Jojo Moyes, é uma deliciosa viagem no tempo através da correspondência de uma jornalista contemporânea e uma socialite da década de 60. Poderia ser “apenas” uma história de descobertas amorosas, mas é uma reflexão sobre a evolução do comportamento e do papel feminino na atualidade.
Comportamento – O provocador Guia Politicamente Incorreto da Filosofia (Leya, R$ 39,90), de Luiz Felipe Pondé, quer desmistificar temas que se tornaram verdadeiros tabus nos dias de hoje, em nome do respeito às diferenças humanas. Ética, luta de classes, feminismo, religião e culpa estão entre os conceitos demolidos com base nos estudos clássicos e na filosofia. Leitura divertidíssima, embora poucos tenham coragem de



Autoajuda – Guia de Estilo para Candidatos ao Poder – e para quem já chegou lá (Senac-São Paulo, R$ 54,90), de Sérgio Kobayashi, Milla Mathias e Luci Molina, aposta no ditado “O hábito faz o monge”, lembrando que Lula só chegou à Presidência da República depois de uma repaginada básica. Entre recomendações de estilo para homens e mulheres, os autores enumeram curiosidades como a origem do nome e do uso da gravata (que vem de “croata”, porque, diz a lenda, os soldados da região, quando saíam para a guerra, amarravam no pescoço os lenços que as amadas lhes entregavam na despedida). Leitura mais que oportuna em ano eleitoral.
Reportagem – Fuga do Campo14 (Intrínseca, R$ 24,90), de Blaine Harden, conta a terrível história de Shin Dong-Hyuk, que teve o azar de nascer dentro de um campo de prisioneiros norte-coreano, fruto de um casamento arranjado. Os pais não haviam cometido qualquer crime contra o Estado, porém tinham parentes que tentaram se rebelar – motivo suficiente para a prisão. Criado para ser delator a serviço da alucinada ditadura da Coreia do Norte, ele passou a maior parte da vida sonhando com comida. Não gostava da família – se é que pode se chamar de família a reunião de pessoas com elos biológicos, que jamais demonstraram qualquer afeto uns pelos outros. Além do relato de sua aventura e das atrocidades que ele e outros prisioneiros presenciaram, o livro mostra a difícil adaptação de Shin à liberdade.
Quadrinhos –A vida e obra de Sigmund Freud e Carl Jung foram os primeiros volumes da Coleção Entendendo (Leya, R$ 24,90)., que trata não só de personagens que marcaram a história do pensamento, mas aborda temas como filosofia, física quântica, religião, linguística e psicologia, entre outras ciências. O formato leve e irreverente convida os autores dos textos, todos especialistas no assunto de cada livro, a empregarem uma linguagem divertida. No entanto, não há superficialidade no conteúdo apresentado. Os desenhos são de artistas premiados, como o argentino Oscar Zarate.
Romance –Volta e meiaJane Austen surge com algo “novo” no mercado. Agora, Persuasão (Zahar, R$ 49,90), publicada meses após sua morte em 1817, ganhou uma edição comentada sobre a pouco convencional história de uma mulher que recusa um pretendente (como a própria escritora fez), atendendo às conveniências sociais, que precisam ser derrubadas, em nome da felicidade. O belo volume traz ainda duas novelas inéditas em português, Lady Susan e Jack e Alice. Só por elas, já vale abrir o livro. A primeira é uma sarcástica ‘narrativa epistolar, com uma anti-heroína que manipula amigos e parentes, sem o menor pudor. A segunda, um exercício de descoberta de personalidades de um grupo de conhecidos.
Biografia – Casos Filosóficos (Civilização Brasileira, R$ 49,90), de Martin Cohen, alinha curiosidades dos grandes pensadores da Humanidade. Sobram esquisitices no desfile de personalidades excêntricas, entre elas o metódico Emmanuel Kant e o desastrado Karl Marx, que jamais administrou a rotina financeira de sua família. O objetivo não é divertir o leitor, mas mostrar a influência das vidas nem sempre convencionais de tantos homens – e poucas mulheres – sobre suas criações.
Seguindo a fórmula básica dos conflitos de bem contra o mal, os novos heróis refletem dilemas morais de nossa época, em histórias situadas, preferencialmente, no futuro, quando a Terra atravessa uma revolução social ou recupera-se da catástrofe natural oriunda da ganância que destroçou a natureza. A iminente destruição do planeta eclode em diversos trechos de A Batalha do Apocalipse – Da queda dos anjos ao crepúsculo do mundo (Verus, R$ 39,90), do jornalista carioca Eduardo Spuhr. A luta de anjos guerreiros em diversos períodos históricos já vendeu mais de 50 mil exemplares no Brasil, nos últimos dois anos, e está em fase de tradução para o lançamento na França.
Uma sociedade que exacerba valores atualmente em voga – a beleza, a juventude e a popularidade – é o pano de fundo da série criada pelo americano Scott Westerfeld. A protagonista Tally Youngblood, que aparece no primeiro volume, Feios (Galera Record, R$ 39,90), às vésperas de completar 16 anos, quando faria a primeira cirurgia para transformar-se em beldade estonteante, conseguiu eliminar a obediência cega à ditadura da beleza. Mas a sociedade continua oprimindo seus membros, que, em Extras (Galera, R$ 39,90), almejam a celebridade a qualquer preço. Na busca pelos holofotes da mídia, um grupo de surfistas ferroviárias high tech será salva de perigos e da homogeneidade por Tally.
O ritual de passagem da adolescência para a maturidade em Genesis (Intrínseca, R$ 24,90), do neozelandês Bernard Beckett, é submeter-se a exames de conhecimento que exigem muita preparação dos jovens. O enredo é até previsível para leitores experientes – em leitura ou em vida -, mas o estilo de Beckett prende o leitor até a última página. O futuro triste que aguarda o homem intriga autores desde sempre. O exemplo clássico é o de H.G. Wells, passando por Aldous Huxley e Bioy Casares. Poucos se lembram de uma pequena obra impressionante,
A Praga Escarlate (Conrad, R$ 23), de Jack London, que mostra um mundo devastado depois de uma epidemia que matou milhões e acabou com a civilização então conhecida. Lançado em 1916, não poderia ser mais atual, quando vivemos o pavor de gripes altamente contagiosas ou das mutações nos tipos de dengue. Na novela, pior que a praga é o planeta que sobra. Sobrevivem os mais fortes e os que são imunes ao vírus. A força bruta torna-se mais necessária que o conhecimento e, além de vidas, a doença mata as formas de comunicação. Os jovens não sabem ler e se expressam com um vocabulário tosco. Uma bela metáfora para tempos que parecem estar sempre para chegar.
Um representante da mística masculina é Clint Eastwood, ator que encarnou personagens caladões, adeptos da justiça pelas próprias mãos, que geralmente protagonizam também os filmes que ele dirigiu. Na vida real, Eastwood parece ter se pautado por um código próprio de trabalho e disciplina, com total desprezo pelas relações pessoais ou profissionais. A biografia Nada Censurado (Nova Fronteira, R$ 49,90), de Mark Eliot, segue o modelo em voga ultimamente de levar a público defeitos e qualidades das celebridades, que mesclariam talento com um bom olho para os negócios. Segundo Eliot, o durão de Hollywood conquistou mais mulheres do que qualquer roqueiro, mantendo um caretíssimo casamento de fachada, enquanto construía uma carreira sólida que o tornou um dos campeões de bilheteria nos Estados Unidos. Se o livro mostra um Eastwood duro de aturar – indiferente às ex-amantes, pai distante, politicamente conservador, machista -, a leitura é irresistível como seus filmes.
Durões à parte, os homens sempre foram capazes de produzir obras extremamente românticas e sensíveis. Uma de minhas favoritas é Com o Diabo no Corpo (Contraponto, R$ 38), de Raymond Radiguet, que morreu em 1923, aos 20 anos, depois de publicar o relato sobre seu envolvimento com uma mulher casada, na Primeira Guerra Mundial.
O intenso triângulo amoroso de Jules e Jim (Zahar, R$ 52), de Henri-Pierre Roche, também seria a recordação de um episódio vivido pelo autor – e que se tornou conhecida pela belíssima versão cinematográfica de François Truffaut.
A novela As Pontes de Madison (Relume-Dumará, R$ 18, na Estante Virtual), de Robert James Weller, foi levada às telas por Clint Eastwood, que dirigiu e interpretou o papel do protagonista, um fotógrafo de Nova York que se apaixona por uma dona-de-casa interiorana, como, diz a lenda, teria acontecido com o escritor.
A saudade de outro viúvo dá o tom de Compramos um zoológico (Objetiva, R$ 29,90), do jornalista Benjamin Bee. A reforma das instalações para 200 animais, na Inglaterra, era um projeto da família, incluindo sua mãe e irmãos. O livro conta ainda os últimos dias da mulher do jornalista, gravemente doente, mas entusiasta da ideia, que transforma a vida de todos os envolvidos – e inspirou um filme de Cameron Crowe, estrelado por Matt Damon.
Em época de amores mais fluidos, o romantismo masculino demonstra sua vitalidade na belíssima graphic novel O Gosto do Cloro (Leya/Barba Negra, R$ 49,90), do francês Bastién Vives. Ao narrar o encontro de um jovem casal numa piscina pública de Paris, Vives fala sobre amor e solidão com uma sobriedade comovente. A melancolia se alterna à esperança em imagens com tons azulados, brancos e cinzentos, que renderam ao autor o Prêmio Revelação de Angoulême, em 2009, e o projetou entre os novos artistas dos quadrinhos.
Cresci durante o regime militar, quando apenas brasilianistas, os acadêmicos estrangeiros, eram levados a sério ao escrever sobre a história do País. Nos anos 80, durante o processo de abertura política, um jargão entrou em voga: o revisionismo histórico. Nesses 26 anos, não foram poucos os livros que repensavam a História
recente do Brasil. Muitos relatos de ex-guerrilheiros urbanos, como O que é isso, companheiro? (Companhia de Bolso, R$ 21,50), de Fernando Gabeira, ou Os Carbonários (BestBolso, R$ 19,90), de Alfredo Sirkis,e dossiês sobre a tortura, entre eles o famoso Brasil Nunca Mais(Vozes, R$ 10, no site Estante Virtual), ficaram anos nas listas de mais vendidos.
Às vésperas de mais um aniversário da tomada do poder pelos militares, chega às livrarias brasileiras A política nos quartéis – Revoltas e protestos de oficiais na ditadura militar brasileira (Zahar, R$ 49,90), da historiadora Francesa MaudChirio, sobre a existência de facções diversas entre os militares, mesmo os que apoiavam o golpe. A pesquisa levanta os pontos de discordância entre um grupo que é visto, geralmente, como coeso, sem nuances ou diferenças ideológicas.
Conhecidas como “repúblicas de bananas”, as ditaduras latino-americanas estão em Tiranos e Tiranetes (Record, R$ 39,90), do jornalista Carlos Taquari. Centrando a narrativa na trajetória dos “homens fortes”, que tinham por ideal “um regime sem oposição e sem imprensa livre”, Taquari conta a história de cada país e, em muitos casos, os diversos regimes de exceção que os dominaram. O texto leve e jornalístico vai até os primórdios da chegada de Colombo à América, as guerras entre invasores e nativos, passando por diferentes governos e os banhos de sangue que promoveram.
Há 30 anos, a ditadura militar argentina declarou que as Ilhas Malvinas eram parte do território do país. O arquipélago, uma possessão britânica, foi invadido pelos argentinos, conclamados a defender o que viria a ser o último suspiro de um combalido governo. O Código das Profundezas – Coragem, patriotismo e fracasso a bordo dos submarinos argentinos nas Malvinas (Civilização Brasileira) traz a pesquisa do jornalista Roberto Lopes, baseadaem documentos que comprovam que a fanfarronice dos militares argentinos jamais poderia ser levada a sério, devido à precariedade de seus submarinos e sucessivos erros operacionais cometidos.
O uso de uma mentira para justificar a declaração de guerra não é prerrogativa dos governos ditatoriais. Os democráticos também não hesitam em lançar mão de tal artifício, como fez o governo de George W. Bush ao alardear que o Iraque tinha armas químicas jamais encontradas. Segundo o cientista político John J. Mearsheimer, autor de Por que os líderes mentem – toda a verdade sobre as mentiras na política internacional (Zahar, R$ 38), a prática, consagrada desde a criação do conceito de Estado, pode ser explicada na definição do diplomata britânico Sir Henry Wotton sobre um embaixador: “um homem honesto enviado para mentir no estrangeiro pelo bem de seu país”.
A mentira também é um tema que perpassa a obra do cineasta Michael Moore, o irreverente ganhador de um Oscar que, ao receber o prêmio, lamentou que seu país tivesse um “presidente fictício”, com quem ainda esbravejou: “Que vergonha, sr. Bush!”. Foi o bastante para, no dia seguinte, receber ameaças de morte e ter que viver sob proteção policial. A fama de encrenqueiro, Moore construiu desde muito jovem, como conta na deliciosa autobiografia Adoro Problemas – Meio século de História e política americanas passado a limpo (Leya, R$ 34,90), em que fala sobre política e cinema com o mesmo arrebatamento que caracteriza seus filmes.
O encanto com a beleza natural do Brasil e os corpos morenos escassamente cobertos nas praias cariocas é o primeiro desses traços comuns, mas o verbete “Brasil” do Dicionário Amoroso da América Latina (Ediouro, R$ 59,90), assinado por Mario Vargas Llosa, fala da criatividade brasileira no futebol. Já o verbete sobre o Rio de Janeiro é o ensejo para que o laureado escritor peruano se mostre absolutamente extasiado com a visão de milhares de foliões dançando com pouquíssima roupa, trocando carinhos e “quase fazendo amor” sob olhos indiferentes dos que acompanham o cortejo dos blocos carnavalescos. “Serão fúteis todos os planos para controlar a libido dessa sociedade de demografia galopante que beira os 170 milhões de habitantes”, comentava Llosa, sobre uma de suas visitas à cidade, há cerca de 10 anos, concluindo que enquanto existir o carnaval carioca “a vida será melhor do que é normalmente, uma vida que, por alguns dias (…) toca os faustos do sonho e se mistura com as magias da ficção”.
Em Dançando nas Ruas – Uma História do Êxtase Coletivo (Record, R$ 54,90), a jornalista americana Barbara Ehrenreich descreve a evolução de um bloco pelas areias da praia de Copacabana para ilustrar a integração democrática de estranhos movidos apenas pelo júbilo coletivo proporcionado pela dança: “Não havia nenhum objetivo naquilo. (…) era apenas a chance, da qual precisamos cada vez mais neste mundo abarrotado, de reconhecer o milagre da nossa existência simultânea em algum tipo de celebração”. Além de compartilhar o deslumbramento de Vargas Llosa com a entrega dos foliões ao carnaval, Barbara Ehrenreich defende a tese de que as elites desprezam as festas populares, das quais se aproximam apenas para garantir ganhos financeiros ou políticos. Quando a entrevistei, há cerca de um ano e meio, para o Valor Econômico, Barbara deu como prova da ojeriza das classes abastadas a essas ocasiões de júbilo coletivo, o costume “dos ricos cariocas de viajarem no Carnaval”.
Em Como o Mundo Faz Amor, (Verus, R$34,90) uma pesquisa dos hábitos amorosos em diferentes partes do globo terrestre, o jornalista Franz Wisner explica por que iniciou o projeto no Brasil. “Com molejo e um olhar, o Brasil nos chama e nos diz que, sim, o amor é possível”. De sua admiração pela voz sedutora da locutora Íris Lettieri no Aeroporto do Galeão até o namoro com uma brasileira, Wisner apresenta um país contraditório, onde todos se beijam em público, mas hotéis impedem a visita de mulheres aos quartos dos hóspedes estrangeiros.
A americana Priscilla Ann Goslin lançou, em 1992, How to be a carioca – the alternative guide for tourists in Rio (Editora Twocans, R$ 32), que se propunha a ser um guia alternativo para turistas no Rio de Janeiro – e que tem um olhar bastante realista para seus habitantes. O texto é divertidíssimo e trata das peculiaridades dos moradores de uma cidade onde um convite para aparecer “lá em casa” jamais deve ser tomado ao pé da letra.
O título original de Futebol – O Brasil em Campo (Zahar, R$ 59), explicava melhor a sensação do autor, o inglês Alex Bellos. Football – the Brazilian Way of Life conta como os brasileiros tornaram o esporte um elemento de identidade nacional. Como Priscilla Goslin, Bellos viveu no Brasil, e não se deixa trair pelos chavões da euforia e sensualidade naturais aos nativos.
Mesmo a sobriedade do economista Edward L. Glaser não resiste ao entusiasmo com os clichês da beleza natural da orla carioca. Antes de explicar por que vê algo de bom nas favelas, em Os centros urbanos – a maior invenção da humanidade (Campus, R$ 96), ele afirma que nas praias do Rio, de clima geralmente sublime, e normalmente enfeitada por pessoas bonitas, “os cariocas parecem estar se divertindo ainda mais que os estrangeiros”. Bom para nós, não?
Adoro quando amigos explicam minhas idiossincrasias através da astrologia. Por isso mesmo, eu, que desconheço quais são os ascendentes de meu signo e que, definitivamente, não creio na influência de corpos celestes na formação do meu caráter, acabei me divertindo com Relacionamentos astrais: O guia astrológico essencial para a mulher (Nova Era, R$ 49,90). As especialistas Tali e Ophura Edut pesquisaram minuciosamente mapas astrais de seus ex-namorados para classificar o comportamento dos nativos de cada período zodiacal. Quem quiser se arriscar a namorar rapazes de absoluta incompatibilidade astrológica, ao menos, saberá o que esperar deles.
Vez por outra se fala que Joyce Carol Oates pode ganhar o Nobel de Literatura. Enquanto o prêmio não sai, ela continua escrevendo sobre uma realidade que transcende o universo norte-americano, onde situa suas histórias. Em Pássaro do Paraíso (Alfaguara, R$ 54,90), um casal se apaixona enquanto investigam se a mãe do rapaz foi morta pelo amante, pai da moça, numa cidade pequena ao norte dos Estados Unidos. Mais do que uma trama policial, ela traça um panorama da sociedade atual, sob sua particular ótica sombria.
Partindo de suas experiências desastradas na arte da conquista amorosa, Samantha Schofield tentou criar em
Na última coluna eu falei de meu apreço por alguns livros formadores de minha identidade de leitora. Entre eles estavam os de Laura Ingalls Wilder, autora de uma série sobre sua própria família, desbravando o território norte-americano no século XIX. Mal sabia eu que a Record acaba de relançar os livros de Laura Ingalls, em formato pocket. O primeiro a sair é Uma Casa na Floresta (Bestbolso, R$ 14,90), que conta a primeira infância de Laura, quando vivia em Wisconsin.