Essa gente que vai se embora…

Eduardo Galeano e Günter Grass partiram do planeta no mesmo dia, deixando terráqueos com um vazio no peito, inconformados com o silêncio. Ambos eram escritores da moda nos anos 70/80. Galeano por causa do contundente As veias abertas da América Latina (LP&M, R$ 22,90), em que discutia 500 anos de opressão no continente, Grass por O Tambor (Nova Fronteira, R$ 68), o romance picaresco que, para muitos, melhor explicou o sentimento alemão no pós-guerra. Não li nenhum desses livros, preferi o que era menos árduo na obra dos dois mestres.

futebol-ao-sol-e-a-sombraA morte de Galeano foi bem mais pranteada por aqui, a despeito de Grass ter ganhado um Nobel de Literatura, em 1999. Galeano era queridíssimo das esquerdas latino-americanas e falava das nossas dores, com aquele calor bem local. Dele li, naturalmente, a poética antologia Mulheres  (LP&M, R$ 22), com textos que ele próprio selecionou de diversos livros, tratando poeticamente de figuras femininas reais ou ficcionais. Estão lá as  brasileiras Xica da Silva, cuja peruca de cachos brancos cobria uma cicatriz “feita a ferro, quando ela era escrava”, a  portuguesa de nascimento, mas totalmente trabalhada no south american way, Carmem Miranda, “o principal produto de exportação do Brasil”, e a entidade Maria Padilha, que “escolhe, para manifestar-se neste mundo, as mulheres que nos subúrbios do Rio ganham a vida entregando-se a troco de tostões”. Eva Peron, Frida Kahlo, as mulheres incas, as que pegaram em armas nas revoluções no mundo inteiro, as que não se conformaram em cumprir papeis sociais pré-definidos, as bruxas de Salém, assufragettes norte-americanas, as que eram levadas para conventos pelas famílias. Em contraponto, ou somando-se ao olhar apaixonado feminista, Galeano era absolutamente encantado pelo esporte favorito do homem. Futebol ao sol e à sombra (LP&M, R$ 22) é quase um hinário de devoção ao ‘belo jogo’. O fervor pela Celeste, a seleção uruguaia, é combinado à admiração pelo futebol brasileiro, sobre o qual era capaz de discorrer com a mesma seriedade que dedicava à política.

De Grass, confesso sem o menor pudor, li só  A caixa – Histórias de uma câmara escura (Record, R$ 42), romance nitidamente calcado em sua vida e na de seus oito filhos (seis biológicos, dois adotados), no qual conta os encontros da família, que muda de tamanho a cada novo casamento do pai. O livro é dedicado a Maria Rama, representada na história por Marie, amiga da família, que fotografa os encontros numa velha câmera Agfa. A solidão das crianças diante do pai célebre, que abandona o grupo por novos amores, demonstra a genialidade de Grass num texto exuberante e direto, que se destaca de outras histórias mais elaboradas.

Günter Grass cresceu na Alemanha nazista e até 2006 escondeu seu passado como membro da Juventude Hitlerista, na adolescência. A culpa por ter pertencido a uma sociedade que encarava o nazismo com um determinismo biológico está entranhada em sua obra, mas a descoberta de sua participação nas SS, ainda que sem qualquer acusação de crime cometido, maculou sua imagem de responsável pela consciência moral da nação. O trabalho literário impecável continuou merecendo reconhecimento mundial, embora nada tivesse o mesmo sucesso que O tambor, a história do menino Oskar, que se recusa a crescer num mundo dividido entre a ideologia do passado e a condenação do presente.

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Sobre Olga

Para alguns, existem deuses e religiões; minha devoção se dirige à literatura. Assim surgiu este blog, um dos milhões que nascem a cada segundo no planeta. Sem pretensões, só para compartilhar um dos prazeres solitários mais subversivos e incompreendidos de que dispomos.
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