O difícil adeus aos gênios

Orson Welles não foi o maior gênio do cinema, porque antes dele houve Chaplin e depois Hitchcock. Os três se tornaram referências na história da arte, em geral. A apropriação desses criadores como personagens é corriqueira, em filmes. Neste maio,  Welles completaria 100 anos de nascido. Celebrado como inovador pela ousadia estética em fotografia, edição, montagem e narrativa apresentados em Cidadão Kane, que dirigiu com apenas 25 anos, ele já havia aterrorizado os Estados Unidos, com sua dramatização, por cadeia de rádio, do clássico A Guerra dos Mundos, de H.G.Wells. A transmissão foi interrompida depois que milhares de pessoas em pânico, correram às ruas, temendo a invasão de alienígenas em Nova Jersey.

O último filme de Welles foi Verdades e Mentiras, em que ele discute autoria artística, mostrando trabalhos de falsificadores de pinturas. Do título original, F for Fake (F, de falsificação), Antonio Xerxenesky tirou o nome de seu romance, F(Rocco, R$ 27,50), um thriller que tem como protagonista uma assassina de aluguel brasileira, contratada para assassinar Orson Welles. Mais do que uma história de suspense, F é uma iguaria reflexiva para os admiradores de Welles. Pródigo em informações sobre a filmografia  do  cineasta,  o romance faz uma reflexão sobre os filmes “de autor”, a paixão sobre cinema e o  carisma de um homem que foi maior do que sua própria obra.

b0fc89fb-6b0b-49d2-89a6-95c5f4158f86Tanto F quanto A última dança de Chaplin (Intrínseca, R$ 39,90), do italiano Fabio Stassi, abusam de imagens literárias que remetem aos enquadramentos dos protagonistas de suas histórias. Nesta biografia romanceada de Chaplin, ele faz um trato com a Morte, na noite de Natal de 1971: se conseguir contar-lhe uma história que a faça rir, terá mais um ano de vida, tempo necessário para acompanhar o crescimento de seu filho mais moço. Todos os anos, então, eles se encontram e Chaplin consegue adiar  sua partida. E, temendo fracassar, ele escreve uma longa carta para o filho, contando seu tráfico passado: a infância pobre na Inglaterra com o irmão Sidney enfrentando o alcoolismo do pai e a doença mental da mãe, iniciando a vida de ator fazendovaudeville, até a carreira bem-sucedida nos Estados Unidos. O tom poético, quase chapliniano, permeia todo o texto.

carne_tremula_9788525418067_mNesta mesma semana, os apaixonados por literatura policial perderam uma de suas rainhas, a baronesa Ruth Rendell. Seguindo a tradição britânica, da qual o maior expoente é Agatha Christie, ela situou suas tramas numa Inglaterra conturbada, angustiada com a explosão de conflitos sociais. Seu principal personagem, o inspetor Wexford, acompanha uma sociedade em mutação, tentando entender os novos parâmetros de comportamento. Rendell costumava dizer que Wexford, sempre tentando manter a serenidade, mesmo atônito diante do mundo contemporâneo, era seu alter ego. Os temas densos que abordava quase sempre provocavam os crimes do cotidiano, aqueles que estão no noticiário do jornal, e lhe garantiram reconhecimento no meio literário. O thriller psicológico de Ruth Rendell é tão impressionante Ganhou quatro prêmios Edgar e quatro Dagger. Seus mais de 60 romances foram traduzidos em diversos idiomas. Entre as diversas adaptações cinematográficas de seus livros, a mais conhecida é Carne Trêmula (LP&M, R$ 19,90), roteirizada e dirigida por Pedro Almodóvar.

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Sobre Olga

Para alguns, existem deuses e religiões; minha devoção se dirige à literatura. Assim surgiu este blog, um dos milhões que nascem a cada segundo no planeta. Sem pretensões, só para compartilhar um dos prazeres solitários mais subversivos e incompreendidos de que dispomos.
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