Histórias que se repetem

15 de novembro de 2014

Aparentemente, falta de imaginação está sobrando literatura. Há uns bons dez anos surgem tantas “releituras” de antigas narrativas que quase se configuram em novo gênero literário. Essas novas versões sobre textos consagrados dificilmente têm um quinto da qualidade dos originais – com louváveis exceções, mas que nem sempre tem o retumbante sucesso de outras recriações nem tão originais assim.

Capa Austenlândia V2 RB.aiUma recriação que pode ser considerada um exercício literário é  Morte em Pemberley (Companhia das Letras, R$  47 ), da veteraníssima dama do crime P.D. James, que, copiando o estilo de Jane Austen, usa os cenários e personagens de Orgulho e Preconceito na investigação do assassinato do charmoso patife George Wickham.  A ironia de Austen combinada à perfeita montagem de um enredo policial tornam a novela uma “fanfic” de altíssima qualidade. Outra conhecida adaptação de Orgulho e Preconceito, O diário de Bridget Jones (BestBolso, R$ 18), de Helen Fielding, não apenas foi um sucesso estrondoso, como acabou dando respeitabilidade à chick lit, um gênero que não prima nem ela originalidade nem pela qualidade de suas autoras. Também houve Austenlândia (Record, R$ 28)  que propunha uma “vivência” em um ambiente da Era Georgiana – que gerou um filme divertido. A mais recente obra inspirada em Jane Austen é  O diário secreto de Lizzie Bennet(Verus, R$  30), que leva para o papel o interessante seriado da Internet que transpôs Orgulho e Preconceito para uma ambientação contemporânea (Elizabeth Bennet trabalha com vídeos para a Web, Mr. Darcy tem uma produtora de cinema etc).

downloadA falta de originalidade, no entanto, não se limita à cópia da ficção já consagrada. O romance feminino sempre investiu na fórmula dos opostos que se atraem para eternizar amores que subsistem como grande realização da mulher que leva ao altar homens durões, descrentes da paixão – até Austen fez isso, só que com uma observação social e um sarcasmo que a colocam em outro patamar romântico. Repletos de clichês repetidos à exaustão, esses amores são consumidos como refrigerante por leitoras fieis. A prova de que a mistura dá certo está na série Hot, da americana Bella Andre, que inventou uma família de seis irmãos, que sempre são lindos, bem sucedidos, atléticos e extremamente sensuais, prontos a se render aos encantos de mulheres maravilhosas, intensas, com vidas profissionais invejáveis. Há ainda duas irmãs, que também encontram príncipes encantados ardentes e desejáveis. Em meus pensamentos (Novo Conceito, R$ 29,90) contava o encontro da caçula da família com o homem dos seus sonhos. Mas Bella Andre, do alto de “mais de 3,5 milhões de livros vendidos”, segundo informa a editora, mantém a saga familiar com O jeito que me olha (Novo Conceito, R$  34,90) sobre um um dos primos daquele muitos irmãos, que reforma a casa de veraneio da família e se torna vizinho de uma amiga de infância. No cenário idílico, depois de muitos embates sexuais, eles decidem ficar juntos para o resto da vida.

livro_XMu7B7Um pouco menos picante, mas muito mais divertida é a série da família Walsh, criada pela irlandesa Marian Keyes. Depois de contar as peripécias de cinco irmãs em Melancia, Sushi e Férias, chegou a vez da mãe do clã. Mamãe Walsh: Pequeno Dicionário da Família Walsh  (Bertrand, R$ 22) revela segredos, como a razão para a dona de casa criar as filhas com comida congelada efast food, com muito humor. Já a também irlandesa Lucinda Riley, cujos romances têm um viés mais dramático, abre o primeiro volume da série As sete irmãs  (Novo Conceito, R$ 39,90) com a história de Maia, uma das filhas adotadas por um milionário misterioso, que descobre ter nascido no Rio de Janeiro. Em visita à cidade, a autora decidiu criar uma trama que tivesse de um casal de namorados ligado à construção da estátua do Cristo Redentor.

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Sobre Olga

Para alguns, existem deuses e religiões; minha devoção se dirige à literatura. Assim surgiu este blog, um dos milhões que nascem a cada segundo no planeta. Sem pretensões, só para compartilhar um dos prazeres solitários mais subversivos e incompreendidos de que dispomos.
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