Exercitando o cérebro

7 de junho de 2014

Aproxima-se uma época festiva e sofrida.  Escolas e universidades decidiram antecipar as férias de fim de ano. Os demais mortais em território brasileiro também usufruirão de feriado para acompanhar jogos da Copa por todo o País. Mesmo quem vocifera contra a paixão pelo belo esporte poderá aproveitar o descanso para outras atividades que exercitem a atividade cerebral. Daí a relação de algumas leituras estimulantes e tão envolventes quanto uma boa partida de futebol.

18702b7b-7186-43d7-8fe7-30d556ef6d3dIntelectual mesmo é aquele que já leu Thomas Mann.  O alemão filho da brasileira Júlia – nascida e criada na bela Paraty – é um dos mais densos criadores da literatura.  Quem teme a erudição de Mann, pode começar a desbravá-lo por um de seus mais famosos títulos, a bela novela Morte em Veneza (Saraiva, R$ 14) – que acabou se popularizando como referência requintada gay não só pelo seu tema, do homem que se apaixona platonicamente por um menino, a própria encarnação da beleza, mas pela lindíssima – e bastante sensual – versão cinematográfica de Luchino Visconti.   Outra boa iniciação no estilo de Mann podem ser os dez artigos reunidos emTravessia marítima de Dom Quixote – Ensaios sobre homens e artistas (Zahar, R$ 49,90), em que ele discorre  sobre literatura, política, sociedade e ética, entre outros temas. O título vem do diário de uma viagem de navio aos Estados Unidos, em 1934, em que ele se dedicou a refletir sobre a obra de Cervantes e a descrever a vida a bordo, passando  ao leitor a sensação de compartilhar de sua intimidade.

65c7adf4-0b88-4738-98cd-1cbc7b90882c (1)Quase tão cultuado quanto Thomas Mann, o austríaco Gustav Klimt era o mais celebrado pintor da Viena no início do século XX. Notório sedutor, envolvia-se romanticamente com suas modelos, de quem, geralmente, só fazia um retrato. A exceção rendeu foi a socialite Adele Bloch-Bauer, que, oficialmente, foi retratada em duas telas de Klimt. A saga para recuperar a mais famosa delas, confiscada pelos nazistas, e recuperada pela família apenas na década de 2000, está em A Dama Dourada – Retrato de Adele Bloch-Bauer (José Olympio, R$ 52), uma extensa pesquisa da jornalista Anne-Marie O’Connor. O quadro foi vendido para a Neue Gallery, de Nova York, em 2006,  por US$ 135 milhões, depois de anos de disputa entre os herdeiros e o governo austríaco.

Capa Foi-se o Martelo V3 RB.inddUm artigo do jornalista Ben Lewis sobre as piadas que reunira para o documentário Hammer and Tickle, lançado em 2006, para uma revista inglesa registrou o maior número de acessos ao site da publicação.  Lewis decidiu, então, descrever sua trajetória coletando as anedotas para o documentário em Foi-se o martelo – a história do comunismo contada em piadas (Record, R$ 59). Burocracia, censura, carência de produtos para consumo e, principalmente, irreverência mostram como as populações das repúblicas soviéticas reagia à ditadura do proletariado. Só na Romênia, entre 1979 e 1989, foram registradas 950 piadas – uma nova a cada quatro dias! Para Ben Lewis, mais do que uma prova de resistência aos regimes, o humor foi a grande produção cultural do comunismo.

61f9ef9e-a02a-4e48-9cce-3b37c0fb9308E nesses tempos em que se subestima a capacidade de compreensão dos jovens brasileiros, com projetos para a substituição de termos “difíceis” por outros mais corriqueiros em textos de Machado de Assis, a Zahar continua apostando na força das obras clássicas. O último volume da coleção Clássicos Zahar a chegar às livrarias é Os Maias (R$ 64,90), de Eça de Queirós. O amor incestuoso entre os irmãos Carlos Eduardo e Maria Eduarda é contado magistralmente por Eça – um dos escritores que melhor soube descrever a alma -, que retrata a atmosfera da Lisboa do fim do século XIX, com a ironia crítica e a mordacidade que caracterizam seu estilo. Além de ilustrações assinadas pelo arquiteto Wladimir Alves de Souza, integrante do Clube do Eça, um dos posfácios da edição, conta a história da confraria de admiradores do escritor. O grupo se reunia  no Rio de Janeiro e promovia banquetes com pratos descritos nos livros de Eça de Queirós.

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Sobre Olga

Para alguns, existem deuses e religiões; minha devoção se dirige à literatura. Assim surgiu este blog, um dos milhões que nascem a cada segundo no planeta. Sem pretensões, só para compartilhar um dos prazeres solitários mais subversivos e incompreendidos de que dispomos.
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