Para ler na rede

Decadência e elegância fantástica

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Jamais ouvira falar no americano Robert W. Chambersantes de abrir as primeiras páginas de O Rei de Amarelo(Intrínseca, R$ 19,90). E aí descobri que Chambers, como tantos outros autores, é cultuadíssimo por ter influenciado escritores do calibre de H.P. Lovecraft e Neil Gaiman, com citações a seus personagens fantásticos e situações que ele criou em diferentes obras, como um romance de Stephen King e, recentemente, o seriado de televisão True Detective.

Particularmente, simpatizo com as confrarias criadas a partir da literatura. Embora não seja fã de Tolkien, li O Senhor dos Aneis muito antes de virar moda no Brasil, na década de 1970, dividido em milhares de volumes pela editora Artenova. Da mesma forma que “myprecious”, dito de forma arfada, remete aos sombrios seres de Tolkien, “42” – o número – é um sinal de distinção para os amantes de Douglas Adams e da série O Guia do Mochileiro das Galáxias (Arqueiro, R$ 24). Todos os anos, em 25 de maio, eu me lembro que é o “Dia da Toalha”.

 

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Chambers lançou O Rei de Amarelo no fim do século XIX . O texto é típico de sua época – bem elaborado e muito descritivo, tratando de angústias existenciais que se agravam a cada linha. O Rei do título é o nome de uma peça de teatro – cujo texto original jamais aparece nos quatro contos que a mencionam. Publicada em livro, faz com que seus leitores tenham destinos trágicos. Entre os elementos fascinantes de uma história sobre uma peça amaldiçoada estão ideias que já foram aproveitadas em outras criações ficcionais, como as câmeras letais, onde é possível “acabar com uma existência(…) insuportável devido ao sofrimento físico ou desespero mental. (…) Lá, uma morte indolor aguarda a pessoa que não suporta mais seus pesares nesta vida”.

O Rei de Amarelo

O amarelo, na virada dos séculos XIX para XX, era associado à loucura, àdecadência e também à vanguarda, informa, no prefácio, o jornalista Carlos Orsi, especialista em Chambers. Nada mais natural que o amarelo fosse incorporado à produção dos chamados escritores “decadentes”, uma tendência literária nascida na França, cujo maior representante talvez tenha sido o francêsJoris-Karl Huysmans, que lançou em 1885 Às Avessas (Penguin-Companhia, R$ 30). O romance narra a trajetória do aristocrata Des Esseintes, que se tranca em sua mansão para evitar o contato com a sociedade burguesa medíocre e substituir a realidade pelo sonho. O decadentismo se insurge contra a moral e os costumes da burguesia, busca o escapismo para fugir do tédio do cotidiano, exaltando o heroísmo individual, além de explorar a sensibilidade e o inconsciente, correndo da responsabilidade e louvando o prazer. Um dos mais importantes personagens de Oscar Wilde, Dorian Gray, é outro representante do movimento.

Às Avessas

Antes de influenciar outros escritores, Chambers buscou inspiração em outros. Alguns nomes de personagens e de locais de Chambers vêm diretamente da obra de AmbroseBierce, jornalista e escritor norte-americano famoso por histórias de terror. Wilde dá nome a um de seus personagens intrigantes. Apesar do respeito que conquistou com a literatura fantástica, Chambers viveu seus últimos anosesquecido por público e crítica. Enriqueceu escrevendo histórias românticas para mocinhas, parecidas com as que hoje são vendidas em bancas de jornal. Comprou, então, uma mansão em Nova York e dedicou-se à caça, pesca, a colecionar arte oriental e livros raros. Quase um personagem decadente, aproveitou a vida melhor que muitos de seus contemporâneos, massacrados pelo moralismo vigente, como Wilde.

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Sobre Olga

Para alguns, existem deuses e religiões; minha devoção se dirige à literatura. Assim surgiu este blog, um dos milhões que nascem a cada segundo no planeta. Sem pretensões, só para compartilhar um dos prazeres solitários mais subversivos e incompreendidos de que dispomos.
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