Para ler na rede

Ai de mim que sou romântica… (*)

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É uma verdade universalmente conhecida (**) que depois da coroação de Jane Austen como a papisa dos enredos românticos não faltam tentativas de recriar seu universo, sempre à procura de um sucesso cuja fórmula une um homem honrado, sensível e de maneiras contidas a uma jovem exuberante, que não esconde de ninguém sua personalidade impulsiva e apaixonada. Desde então, inventar heróis honrados, bonitos e de péssimo humor como Mr Darcy virou uma regra da indústria do livro.

A inventividade dos autores, na maioria dos casos, autoras, levou a safras contínuas de livrinhos vendidos em bancas de jornal – alguns com apelo mais erótico e príncipes encantados menos refinados do que Darcy – e inovações que vendem em torno de um bilhão de exemplares no mundo inteiro a cada ano. A série Bridget Jones é o exemplo mais bem sucedido desse exercício literário. No primeiro volume, Helen Fielding traz a trama deOrgulho e Preconceito (BestBolso, R$ 20) para a Londres da atualidade. A partir de Fielding, é cunhada a expressão “chick lit” – a literatura mulherzinha, hoje um gênero literário, ainda que visto com um certo desdém.

orgulhoepreconceito

Vez por outra surgem algumas chick lits que me surpreendem pela boa ideia, embora nem sempre por sua execução. Uma delas é Austenlândia (Record, R$ 28), da americana da americana Shannon Hale. O livro chegou aqui depois da estreia no Brasil da bem-sucedida adaptação cinematográfica ( o trailer pode ser vistono linkhttp://bit.ly/AustenlandTrailer). Jane Hayes, de 33 anos, tem obsessão por Mr. Darcy – principalmente depois que ele foi interpretado por Colin Firth – e vai tirar férias no parque temático para quem sonha com relações pautadas pelo romantismo e a delicadeza, onde viverá a experiência de envolvimentos românticos com homens refinados e contidos. Apesar de contarem com o conforto de instalações hidráulicas modernas, os hóspedes, misturados a atores contratados para se passarem por aristocratas britânicos, se vestem como se estivessem na primeira metade do século XIX, e se entretêm lendo, bordando, tocando música e conversando. O filme é mais engraçado que o livro, mas a narrativa traz a dimensão da dificuldade de, hoje em dia,abrir mão do conforto tecnológico e das relações sociais menos formais. A sátira à volúpia capitalista que industrializa qualquer assunto é um grande achado.

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A britânica Katie Fforde segue a receita infalível para cativar as leitoras, juntando personalidades opostas cujo encontro há de gerar um grande amor Em Amor nas Entrelinhas (Record, R$ 42), a protagonista é uma leitora compulsiva de romances, que precisa salvar a livraria onde trabalha da falência, garantindo a presença de um autor famoso num evento. Naturalmente, o escritor é insuportável e charmosíssimo. Naturalmente, ele vai se transformar num ser humano melhor ao se apaixonar pela jovem romântica. Por que a trama, que não difere em quase nada de outras histórias românticas, atrai tantos leitores? Porque Katie Fforde sabe combinar os ingredientes que dão arcabouço aos romances, com um estilo divertido e contemporâneo.

amornasentrelinhas

Envolvente e apresentando personagens mais densos do que as mocinhas românticas típicas das chick litsO Segredo do meu marido (Intrínseca, R$ 29,90), da australiana Liane Moriarty, tem tantas subtramas quanto uma telenovela brasileira. A vida aparentemente feliz de vizinhos num subúrbio de Sidney é ameaçada pelo envelope encontrado por Cecília, uma dona-de-casa admirada por seu capricho em cuidar da família, da casa e ainda trabalhar como vendedora de Tupperware, Difícil é respeitar a recomendação de só ler a carta após a morte do marido, cujo comportamento estranho pode ser explicado pelo que ele escreveu para Cecília. A curiosidade do leitor é satisfeita lá pela metade do livro, mas as reviravoltas do enredo não permitem que a leitura seja abandonada antes da última das mais de 300 páginas.

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(*) – Verso da canção Mutante, de Rita Lee e Roberto de Carvalho.
(**) – Trecho da abertura de Orgulho e Preconceito, de Jane Austen, uma das mais conhecidas da literatura ocidental.

Sobre Olga

Para alguns, existem deuses e religiões; minha devoção se dirige à literatura. Assim surgiu este blog, um dos milhões que nascem a cada segundo no planeta. Sem pretensões, só para compartilhar um dos prazeres solitários mais subversivos e incompreendidos de que dispomos.
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