Para ler na rede

Os anos de chumbo, meio século depois

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Quando comecei a trabalhar em jornal, no início da década de 1980, usava-se a expressão “governo militar” para referir-se ao poder tomado à força dos civis quase vinte anos antes. Não que fosse um eufemismo – era um governo e comandado por militares. O golpe de estado que alçou aqueles militares ao governo era chamado de “Revolução”, termo proscrito nesses tempos politicamente corretos.

Um dos poucos a rir-se abertamente daqueles tempos foi Stanislaw Ponte Preta, que apelidou o golpe de “A Redentora”, enquanto fazia seus leitores gargalharem com as bobagens de legisladores e as desastradas ações dos censores nas crônicas reunidas em Febeapá – o Festival de Besteiras que assola o País (Agir, R$ 63,90). Com a abertura e o retorno dos exilados políticos, não faltaram relatos sobre experiências vividas pelos que decidiram pegar em armas para combater os militares. Depois do best-seller O que é isso, companheiro?(Companhia de Bolso, R$ 23) e de Os Carbonários (Bestbolso, R$ 22), de Alfredo Sirkis, vieram as biografias sobre guerrilheiros mortos e as denúncias sobre torturas em Brasil Nunca Mais (Vozes, R$ 65,70).

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A vasta literatura que chega às livrarias no momento em que se completam os 50 anos do golpe surpreende até pela sobriedade dos autores, que não soam rancorosos ao analisar o passado sob a censura e o furor ideológico, que prendeu, torturou e matou muitos dos que se insurgiram contra a situação. Se o período foi sombrio, essa literatura revisionista é objetiva – sem, no entanto, deixar ver os efeitos do regime de exceção em todos os campos da sociedade brasileira, incluindo a truculência do aparato policial. A modernização tecnológica do país, a resistência cultural, a crescente urbanização e as mudanças nos costumes são apresentadas por diversos especialistas em A ditadura que mudou o Brasil – 50 anos do golpe de 1964 (Zahar, R$ 34,90), organizado por Daniel Aarão Reis, Marcelo Ridente e Rodrigo Patto Sá Motta.

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O momento também é propício à revisão de trabalhos sobre o mesmo período, publicados anteriormente. Um deles é Ditadura e democracia no Brasil (Zahar, R$ 44,90), versão atualizada de Ditadura militar, esquerdas e sociedade, lançado pelo historiador Daniel Aarão Reis em 2000. Já no primeiro livro, o autor defendia a tese de que a queda do governo de João Goulart não fora imposta pelas elites, mas sim o resultado de construções históricas concretas. A edição atual sustenta que ainda não há como explicar ou compreender as raízes, as bases e os fundamentos históricos da ditadura, as complexas relações estabelecidas entre o governo e a sociedade, nem o papel desempenhado pelas esquerdas naquele período.

Também ganhou nova edição, revista e complementada por arquivos on line, a série de quatro livros do jornalista Elio Gaspari sobre o regime militar. Lançados entre 2002 e 2004, “A ditadura envergonhada”, “A ditadura escancarada”, “A ditadura derrotada” e “A ditadura encurralada”(Intrínseca, R$ 39,90 – cada volume) somam mais de 2 mil páginas, tratando não só das circunstâncias socioeconômicas que levaram ao golpe, mas dos conflitos entre os próprios militares enquanto estavam no poder. Parte do material de pesquisa está à disposição dos leitores da versão em e-book e também no site http://arquivosdaditadura.com.br. Se a documentação fosse impressa ocuparia mais um volume – que teria em torno de 670 páginas. Entre os arquivos consultados por Gaspari está a gravação de uma reunião na Casa Branca, em outubro de 1963, em que o então presidente dos Estados Unidos, John Kennedy, discutia a possibilidade de uma intervenção militar norte-americana no Brasil, evitando a consolidação de um governo esquerdista. Acreditava-se, até então, que Kennedy, assassinado no mês seguinte à reunião, mantivera-se à parte da crise política brasileira e que seu sucessor, Lyndon Johnson, tivera a iniciativa de reconhecer a legitimidade do regime de 1964.

 

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Sobre Olga

Para alguns, existem deuses e religiões; minha devoção se dirige à literatura. Assim surgiu este blog, um dos milhões que nascem a cada segundo no planeta. Sem pretensões, só para compartilhar um dos prazeres solitários mais subversivos e incompreendidos de que dispomos.
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