Para ler na rede

Verdades inconvenientes

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brilhanteNinguém quer ter filho doente, mau caráter, endiabrado ou que se enquadre no que delicadamente chamamos hoje de pessoas “especiais”. Quando nascem, aguardamos, aflitos, os testes de Apgar e do pezinho, que avalizarão seu desenvolvimento pleno – ou seja, passaremos anos brigando com o moleque que não desgruda da Internet e não quer nada com o estudo. Contraditórios que somos, a maioria vê no rebento um ser admirável, mesmo quando ele está a anos-luz de distância de um Einstein. Alguns pais, no entanto, têm de conviver com as agruras de um filho fora dos padrões, lutando para inseri-lo numa sociedade avessa às anormalidades. Algo que Kristine Barnett conta em em Brilhante (Zahar, R$ 39,90). Seu filho Jake, diagnosticado como autista, ainda criança, revelou-se um gênio em astrofísica.

Com Jake, Kristine teve experiências diametralmente opostas. Uma, a rejeição social ao garotinho que não se relaciona com os demais de forma convencional. A outra, o talento precoce que entusiasma cientistas. O livro de Kristine já teve os direitos comprados pela Warner. Pudera. A descrição da descoberta do conhecimento de Jake é cinematográfica. Depois de saber que o filho provavelmente não aprenderia a ler, embora tivesse um QI altíssimo, Kristine passou a educá-lo fora de escolas, na pequena creche que dirigia, em sua garagem. Jake gostava de brincar com cubos que traziam letras do alfabeto, mas pouco falava ou interagia com outras pessoas. No entanto, o que o interessava tornava-se o centro de sua vida, como um livro universitário de astronomia, que ele carregava para onde fosse. Durante um passeio num planetário, mãe e filho acabam assistindo a uma palestra sobre observação telescópica, quando Jake é o único presente a responder a uma pergunta sobre a forma das luas de Marte. É imediatamente cercado por um público de estudantes e professores de Ciências, que querem o autógrafo do menino, que tinha três anos, então. Hoje, Jake tem 15 anos e é pesquisador na Universidade de Indiana. Seu autismo não o impede de namorar, embora não seja efusivo.

ofilhoeternoNuma era de rotulações médicas, Jake conseguiu impor-se apesar dos limites conhecidos e determinados para suas características. Sim, ele é autista, porém não se enquadrava no que os especialistas admitiam que ele poderia fazer. É um caso raro, raríssimo. Geralmente, os diagnósticos apontam um futuro menos glorioso para os doentes – e o tremendo constrangimento que os pais sentem perante as imperfeições dos filhos. No corajoso O Filho Eterno (Record, R$ 39,90), Prêmio Jabuti 2008, Cristóvão Tezza mostrava o momento devastador em que soube que seu bebê recém-nascido tinha Síndrome de Down. A aceitação da realidade, os tratamentos para desenvolver habilidades que deveriam ser naturais e a certeza de que aquela criança jamais seria um adulto como os outros convivem com o sentimento de rejeição e de constrangimento perante a sociedade. A dificuldade em reconhecer-se naquele filho é suplantada, talvez, pelos próprios movimentos da criança, que é afetuosa com o pai.

 

aondeagentevaipapaiOutra leitura incômoda é Aonde a gente vai, Papai? (Intrínseca, R$ 19,90), do jornalista francês Jean-Louis Fournier, que aborda a paternidade indesejada – a partir da descoberta de uma doença degenerativa que impediria o amadurecimento físico e mental dos dois meninos. A sensação de derrota social do pai é mascarada por um sarcasmo imenso diante da vida. Como o livro de Tezza, este é um daqueles que deixa o leitor com peso no peito, olhos úmidos e um desconforto difícil de esquecer ao fechar o volume.

Sobre Olga

Para alguns, existem deuses e religiões; minha devoção se dirige à literatura. Assim surgiu este blog, um dos milhões que nascem a cada segundo no planeta. Sem pretensões, só para compartilhar um dos prazeres solitários mais subversivos e incompreendidos de que dispomos.
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