A jovialidade madura

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Um olhar rápido na lista de livros mais vendidos mostra que a categoria “jovens adultos” conquistou seu lugar junto à literatura destinada às faixas etárias mais avançadas. O eufemismo foi criado para dar respeitabilidade aos leitores acima dos 15 anos, interessados em refletir sobre temas e personagens joviais e mais associados à juventude do que, propriamente, em ler histórias através de uma ótica distanciada do universo adolescente. Embora muitos lamentem a existência de uma literatura que não exija tanta maturidade do leitor, nem sempre um título para público jovem significa um texto raso e descompromissado.

É impossível deixar de perceber o fascínio que a juventude exerce durante a vida inteira. Em épocas de passagens mais breves pelo planeta, chegar à juventude já era um feito. E eram pouco mais que meninos os protagonistas de clássicos da literatura. Que o digam D’Artagnan, Arthur de Pedragon, David Copperfield, Bentinho, Macunaíma ou Holden Caufield, à frente de aventuras acompanhadas por públicos de idades bastante diversas.

A diferença do romance clássico para os destinados ao “jovem adulto” é que os autores das histórias sobre os intrépidos mocinhos de outrora não buscavam a segmentação etária do público. Por mais que O Apanhador do Campo de Centeio (Editora do Autor, R$ 66), de J. D. Salinger, acompanhe o inseguro Holden Caufield em seu retorno para casa, depois de levar bomba no colégio interno, o famoso romance que “inventou a adolescência” está longe de ser uma novela escrita para leitores abaixo dos 20 anos. Os Três Mosqueteiros (Zahar, R$ 33), de Alexandre Dumas, o mestre do folhetim, contrabalançava o arroubo juvenil de D’Artagnan com a experiência de Athos, Porthos e Aramis, e, embora seja leitura recomendada para jovens, jamais limitou sua classificação a “infanto-juvenil”.

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O quadro atual, com escritores altamente especializados, dedicando esforços e pesquisas para atingir em cheio um público-alvo, o segmento jovem-adulto se consagrou. O mercado brasileiro tem recebido novos títulos e autores, entre eles o atual destaque do gênero, o americano John Green, que mantém pelo menos três de suas obras entre as mais vendidas no País: A culpa é das estrelas, O Teorema Katherine e Cidades de papel (todos da Intrínseca e todos ao preço de R$ 29,90). Green escreve para jovens como se ainda fosse um deles, igual a Stephen Chbovski, autor do intrigante As vantagens de ser invisível (Rocco, R$ 29,50). Também buscando essa ótica juvenil, Carol Rifka Bunt montou uma pungente composição sobre a superação do desconhecimento e dos preconceitos nos primeiros tempos da Aids em Diga aos lobos que estou em casa (Novo Conceito, R$ 34,90). A narradora, June, pouco sabe sobre a doença, que mata seu tio, nos anos 80.

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Semeando o terreno para leitores mais jovens ainda, chegam às livrarias mais dois lançamentos da excelente coleção Save the Story, que apresenta clássicos literários em linguagem acessível para as novas gerações. Contadas por escritores renomados, a coleção é dirigida por Alessandro Baricco, que assina uma versão nova deDon Juan (Galera Junior, R$ 42), compilando o que foi escrito sobre o personagem por Tirgo de Molina, Molière, Lorenzo da Ponte e Mozart. O último lançamento tem Andrea Camilleri recontando O Nariz (Galera Junior, R$ 42), de Nicolai Gogol.

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Sobre Olga

Para alguns, existem deuses e religiões; minha devoção se dirige à literatura. Assim surgiu este blog, um dos milhões que nascem a cada segundo no planeta. Sem pretensões, só para compartilhar um dos prazeres solitários mais subversivos e incompreendidos de que dispomos.
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