Sobre a eternização da juventude e as primeiras letras

SEX, 12 DE ABRIL DE 2013 19:26
E-mail Imprimir PDF

PolegarzinhaPolegarzinha, a pequenina protagonista de um conto infantil de Hans Christian Andersen, tornou-se substantivo para o filósofo francês Michel Serres definir a Geração Y, aquela que vive grudada em equipamentos eletrônicos, teclando sem parar.Polegarzinha (Bertrand, R$ 24 ) é o jovem adulto urbano, que não lê nem quer ouvir “o escrito recitado”. Um fenômeno atual, que vem sendo observado por estudiosos de áreas diversas, mundo afora.

Serres é um daqueles pensadores entusiasmados com a revolução tecnológica e as mudanças de comportamento que a Web 2.0 trouxe para a sociedade. Não adianta reclamar, mas tentar compreender que esta geração não passou por privações como as de seus antepassados, que teve o nascimento programado, enquanto “os pais foram concebidos às cegas”. Esses jovens desinteressados pelos processos tradicionais de ensino necessitam de outras formas de educação que não as consolidadas há séculos, acredita Serres, elogiando a democratização da informação pela Internet, quando “o coletivo (…) cede a vez ao conectivo, realmente virtual”.

SobreEducacaoEJuventudeA desorientação diante de modelos clássicos de ensino não é somente dos alunos, mas também dos educadores, perplexos quando se deparam com os jovens permanentemente conectados com amigos distantes. Observador crítico da cultura “agorista”, que valoriza a inconstância e as sucessivas mudanças, o sociólogo polonês Zygmundt Bauman acusa os governos, que não investem em educação e cultura, pelo fortalecimento  de uma geração de consumidores vorazes. “Comprar por impulso e livrar-se de pertences não mais atraentes o bastante a fim de colocar outros, mais interessantes, em seu lugar são nossas emoções mais instigantes. (…) Compro, logo existo”, diz Bauman em Sobre Educação e Juventude (Zahar, R$ 34,90), uma compilação de entrevistas concedidas a seu tradutor italiano, Riccardo Mazzeo.

 

asociedadequenaoquercrescerMenos otimista e em tom quase de ressentimento, o psicólogo argentino Sergio Sinay lamenta uma característica das populações ocidentais contemporâneas: o culto à juventude eternizada por uma cultura infantilizada e comportamento imaturo. Em A sociedade que não quer crescer – Quando os adultos se negam a ser adultos(Guarda-Chuva, R$ 33), ele culpa sua própria geração por incentivar a dependência dos filhos, embora reconheça o papel preponderante no fortalecimento da cultura da irresponsabilidade por uma indústria que necessita do consumo de  produtos caros, mais acessíveis a quem não tem família para sustentar.  Uma vida de prazeres é prometida e ansiada pela Geração Y, protegida pelos pais de todas as frustrações que fazem parte do processo de amadurecimento.

 

 

Embora mais comedida em número de filhos, a Geração Y já começa a produzir seus próprios rebentos. Para seus pequenos sucessores, chegam às livrarias até o fim deste mês os primeiros títulos do selo infanto-juvenil Pequena Zahar – cada um a R$ 39,90. Depois de 60 anos de mercado, a Zahar, originalmente dedicada à divulgação de material científico, entra no segmento que tem o maior crescimento no setor literário desde a década de 90. Na estreia, os jovens leitores conhecerão Jemmy Button, de Alix Barzelay, que trata de um período da vida do menino levado, em 1830, aos 15 anos, da Terra do Fogo para a Inglaterra, no lendário navio Beagle. Um ano depois, ele retornava companhia do naturalista Charles Darwin. Jemmy, que tinha passado por um processo de “civilização” na Europa, mal chegou à Patagônia deixou o cabelo crescer e abandonou as roupas ocidentais por suas vestes tradicionais. A viagem de senhorita Timothy, de Giovanna Zobolit, é um conto sobre o passeio de 99 ovelhas, que desobedecem, a contragosto, ao fazendeiro que cuida delas. Eu cresci aqui, de Anne Crausaz, conta a história de uma semente e sua evolução em árvore, o que pode ajudar velhas e novas gerações a refletirem sobre maturação e fases da vida.

Jemmy-Button  EuCresciAqui  AViagemDaSenhoritaTimothy

Sobre Olga

Para alguns, existem deuses e religiões; minha devoção se dirige à literatura. Assim surgiu este blog, um dos milhões que nascem a cada segundo no planeta. Sem pretensões, só para compartilhar um dos prazeres solitários mais subversivos e incompreendidos de que dispomos.
Esse post foi publicado em Comportamento, Educação, Sociedade e marcado , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s