Os francófilos e o punk

SEX, 15 DE MARÇO DE 2013 18:45
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madame-charmeUm filão do mercado editorial internacional são os livros de norte-americanos que contam o deslumbramento deles com outros povos e outros estilos de vida. Um dos mais recentes a sair aqui, Madame Charme – Dicas de estilo, beleza e comportamento que aprendi em Paris/Como viver “à française” (Nova Fronteira, R$ 39,90), da californiana Jennifer L. Scott, trata exatamente do que falam os longos título e subtítulos do simpático volume. Se em outras épocas escritores se dirigiam à França em busca de inspiração para a carreira, a temporada de seis meses em Paris, em intercâmbio universitário, mudou toda a vida de Jennifer.

As observações entusiasmadas da autora apontam a simplicidade como fórmula para descomplicar a rotina de quem mora numa metrópole – algo incompreensível para a classe média norte-americana, que fez do consumo uma filosofia.  Entre suas recomendações está a de ter poucas peças de roupa nos armários, investindo mais na quantidade do que na qualidade, o que evita indecisões quanto ao que trajar na hora de sair.  Guardar o mistério, sem revelar muito da vida pessoal, é outro dos conselhos de Jennifer, que, pelas fotografias, aparenta ter entre 30 e 40 anos. A idade é cuidadosamente escondida pela escritora, que sequer menciona em que época esteve na Europa.

À parte seguir a fórmula dos livros de autoajuda, com recapitulação do que deve ser cumprido por quem quiser afrancesar seu cotidiano, Jennifer L. Scott tem um olhar nostálgico sobre o comportamento deselegante da humanidade nos dias de hoje.  Ela também se constrange com o excesso de sexo e violência na televisão. O anacronismo da autora quanto aos hábitos contemporâneos não invalida o divertido texto, que não trata apenas de elegância, mas do quanto o mundo se rendeu ao desvario consumista e se esqueceu de aproveitar os prazeres da convivência social.

os-francesesEm 1983, o historiador inglês Theodore Zeldin lançava Os Franceses (Record, R$ 70), fruto de pesquisas e entrevistas que ele próprio fez com habitantes de diferentes regiões da França e de diversas categorias sociais. O bom-humor permeia o livro, dividido em seis partes, nas quais Zeldin indaga as razões para a dificuldade em encontrar “um francês típico”, como amá-los, como competir e negociar com eles, como apreciar seu gosto (com as subseções que tratam de como comer direito, ser chique e como eles escolhem seu estilo de vida), como entender o que eles estão tentando dizer, e, finalmente, como simpatizar com eles. Na conclusão, ele explica o que significa ser francês. Há treze anos, quando Os franceses foi publicado no Brasil, Zeldin percebia modificações no país, que rejeitava abertamente os imigrantes e estranhava o aumento da população de rua – problemas que se agravaram com a crise econômica que atinge a Europa. Sua visão ainda era de que a França, mais do que um país, constitui uma “ideia”, pregando preceitos revolucionários que se aplicam ao mundo todo e não só a seu território. O espírito contestador dos franceses está no livro de Zeldin, um respeitado pensador, que já foi professor nas universidades de Harvard e Oxford.

 

comandoNem todos os estrangeiros se encantam pela França ou pela romântica Paris. O roqueiro Johnny Ramone simplesmente execrava os parisienses e a capital francesa, onde não havia chuveiro nos banheiros de hotel. Em Commando – a autobiografia de Johnny Ramone (Leya, R$ 44,90), o guitarrista, que morreu em 2004, se esforça para mostrar sua perene insatisfação com tudo na vida. Republicano de carteirinha, enfezado, autêntico filho da classe trabalhadora, a ele faltava refinamento e humildade. Considerava os Ramones a melhor banda punk que jamais existiu e falava mal de todos os demais músicos com quem convivia. Grosseiro, brigão e vigoroso, ele imprime a autenticidade de um adolescente revoltado em seu relato, escrito quando fazia tratamento de câncer. Contraditório, carrancudo e radical, Johnny parece ter envergado, por toda a vida, o modelo do rebelde sem causa, ou, como preferem os franceses, o enfant terrible.

Sobre Olga

Para alguns, existem deuses e religiões; minha devoção se dirige à literatura. Assim surgiu este blog, um dos milhões que nascem a cada segundo no planeta. Sem pretensões, só para compartilhar um dos prazeres solitários mais subversivos e incompreendidos de que dispomos.
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