Consumo e contracultura

Sex, 18 de Maio de 2012 20:10
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Do mercado editorial brasileiro vêm notícias alentadoras desde o surgimento dos e-books. As editoras se preparam para a transição do fim do papel como veículo das narrativas, embora há anos estejam vendendo muito mais do que em outras épocas. A Internet permitiu a melhor distribuição de livros até os mais distantes recantos do País. O faturamento das livrarias brasileiras cresceu 5,26% em 2011. E chegam novas editoras ao Brasil, escapando da carga tributária na Europa, caçando consumidores que surgem com a nova classe média.

Isso é bom, as pessoas estão comprando mais livros. Outro autor de telenovelas além de Manoel Carlos levou para a cena televisiva a discussão literária.  João Emanuel Carneiro botou um jogador de futebol lendo Flaubert e Machado de Assis. É a nova classe média se apoderando da cultura, mostrando que leitura é produto de consumo e de lazer. Na vida real, essa apropriação do livro ganha força quando, apesar do desprezo da crítica, jovens autoras como Thalita Rebouças e Paula Pimenta são idolatradas por pré-adolescentes, encantadas em reconhecer nas histórias para “menininhas” o universo em que vivem.  Thalita tem mais de um milhão de exemplares vendidos com a série iniciada por Fala Sério, Mãe (Rocco, R$ 24,90), e Paula está no quarto volume de Fazendo meu Filme (Guttenberg, R$ 29,90).

fazendomeufilme     falaseriomae

Para leitores de outras faixas etárias, autoajuda, religião e romances açucarados continuam liderando as listas de mais vendidos. E daí? Não é mais produtivo para a melhora de raciocínio e, no mínimo, de vocabulário, ler A Escolha (Novo Conceito, R$   24,90), melodrama de Nicholas Sparks, do que perder tempo em frente à TV acompanhando a miséria da humanidade em programas sensacionalistas? Sparks já vendeu mais de 50 milhões de livros no mundo inteiro, tratando das dores de amores entre casais de diferentes idades. Neste, há os apaixonados, uma doença grave, coma, a dedicação e o amor sólido que supera todas as dificuldades da vida.  É romance rosa típico, só que assinados por um homem.

aescolha

Se Sparks tem o mérito de ser formador de público, isso está totalmente ligado aos enredos que desenvolve, muitos deles aproveitados pelo cinema, como o famoso Diário de uma paixão (Novo Conceito, R$ 29,90). Trama hipnótica e para nenhum crítico botar defeito é a de Tempo é Dinheiro (Intrínseca, R$39,90), o novo lançamento de Lionel Shriver por aqui.Shriver gosta de escrever romances longos – Precisamos Falar sobre Kevin (Intrínseca, R$ 34,90) tem 464 páginas, O Mundo Pós- Aniversário (Intrínseca, R$ 49,90), 544 páginas – e eu não acreditava que me animaria a enfrentar as 448 páginas deste último quando abri o volume. Só o fechei dois dias depois, fascinada com a crítica profunda ao sistema de saúde norte-americano, à arrogância dos intelectuais e à eterna busca pela felicidade de uma classe média simples e trabalhadora – aquela mesma que os especialistas em literatura costumam olhar com superioridade. Os sonhos da sociedade de consumo estão todos ali, de forma quase didática, apontando o egoísmo e o isolamento a que jovens e idosos são relegados pelos membros produtivos do sistema.

tempoedinheiro  precisamosfalarsobrekevin

Na contracultura ideológica do consumismo estariamJohn Lennon e Yoko Ono, que abriram sua intimidade ao jornalista David Chefe na última entrevista que o ex-beatle deu antes de ser assassinado, em 1980. A última entrevista do casal John Lennon e Yoko Ono (Nova Fronteira, R$ 39,90) traz as três semanas de conversas gravadas com os contraditórios John e Yoko.  O carismático Lennon vivia recluso em casa, criando o filhinho Sean, enquanto Yoko se dedicava aos negócios, discutindo a comercialização dos copyrights das canções que o marido compusera. Das divagações de Lennon surge um retrato menos santificado e mais realista sobre o músico.

johnlennon

A desconfiança em relação ao estilo de vida alternativo estava no auge em 1972, época em que o australiano Peter Carey situa Sua Face Ilegal (Record, R$ 42,90). É quando o menino Che, de sete anos, deixa a casa da avó, em Nova York, para seguir uma mulher que ele pensa ser sua mãe numa vertiginosa viagem até a Austrália. Mistério, mentiras, suspense, contados pelo mestre Carey, único escritor a ganhar duas vezes o Booker Prize, o maior prêmio de língua inglesa.

suafaceilegal

Sobre Olga

Para alguns, existem deuses e religiões; minha devoção se dirige à literatura. Assim surgiu este blog, um dos milhões que nascem a cada segundo no planeta. Sem pretensões, só para compartilhar um dos prazeres solitários mais subversivos e incompreendidos de que dispomos.
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