Eles, que jamais perdem a ternura

Sex, 06 de Abril de 2012 19:52
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Se março e maio são meses que relacionamos ao feminino – o primeiro, pelo Dia Internacional da Mulher, o segundo, devido à grande festa do comércio em torno da figura materna -, abril deveria remeter aos homens. Afinal, é em abril que celebramos o único mártir consagrado pela História Brasileira, Tiradentes. Também festejamos o popularíssimo São Jorge, o Santo Guerreiro. Moldados de acordo com o imaginário, ambos exalam os valores associados ao masculino: força, coragem e ousadia, que não precisam estar ligados diretamente à brutalidade.

nadacensuradoUm representante da mística masculina é Clint Eastwood, ator que encarnou personagens caladões, adeptos da justiça pelas próprias mãos, que geralmente protagonizam também os filmes que ele dirigiu. Na vida real, Eastwood parece ter se pautado por um código próprio de trabalho e disciplina, com total desprezo pelas relações pessoais ou profissionais. A biografia Nada Censurado (Nova Fronteira, R$ 49,90), de Mark Eliot, segue o modelo em voga ultimamente de levar a público defeitos e qualidades das celebridades, que mesclariam talento com um bom olho para os negócios. Segundo Eliot, o durão de Hollywood conquistou mais mulheres do que qualquer roqueiro, mantendo um caretíssimo casamento de fachada, enquanto construía uma carreira sólida que o tornou um dos campeões de bilheteria nos Estados Unidos. Se o livro mostra um Eastwood duro de aturar – indiferente às ex-amantes, pai distante, politicamente conservador, machista -, a leitura é irresistível como seus filmes.

Entre os seguidores desse homem de outras épocas, que Clint Eastwood tão bem representou, estão as estrelas de Filho Teu não foge à luta (Intrínseca, R$ 24,90). O jornalista Felipe Awie conta os primórdios da junção do jiu-jítsu a outras modalidades de artes marciais por brasileiros – em especial, a família Gracie.  Sem considerações antropológicas sobre a aceitação social dos praticantes como atletas, que já foram vistos apenas como brigões de pavio curto, Awie mostra a ascensão do vale-tudo no mundo do entretenimento – e a estratégia comercial que ajudou o reconhecimento da luta como prática esportiva. As descargas de testosterona se distribuem ao longo do texto, relatando brigas e pancadarias em que seus adeptos se envolveram antes de alcançarem o atual status.

comodiabonocorpoDurões à parte, os homens sempre foram capazes de produzir obras extremamente românticas e sensíveis. Uma de minhas favoritas é Com o Diabo no Corpo (Contraponto, R$ 38), de Raymond Radiguet, que morreu em 1923, aos 20 anos, depois de publicar o relato sobre seu envolvimento com uma mulher casada, na Primeira Guerra Mundial. julesejimO intenso triângulo amoroso de Jules e Jim (Zahar, R$ 52), de Henri-Pierre Roche, também seria a recordação de um episódio vivido pelo autor – e que se tornou  conhecida pela belíssima versão cinematográfica de François Truffaut.

aspontesdemadisonA novela As Pontes de Madison (Relume-Dumará, R$ 18, na Estante Virtual), de Robert James Weller, foi levada às telas por Clint Eastwood, que dirigiu e interpretou o papel do protagonista, um fotógrafo de Nova York que se apaixona por uma dona-de-casa interiorana, como, diz a lenda, teria acontecido com o escritor.

Outro senhor que não se acanha em declarar abertamente sua paixão é o sociólogo Edgar Morin, que assina Edwige, a Inseparável (Bertrand, R$ 49,90). Depois da morte da mulher, em 2008, ele recorda sem qualquer pudor o romance inicialmente clandestino (já que os dois viviam outros casamentos, então) com a companheira que escolheu para a vida inteira.  As lembranças da história de amor nascida na maturidade se completam nos bilhetes desenhados que um deixava para o outro nos travesseiros ou pela casa.

compramosumzoologicoA saudade de outro viúvo dá o tom de Compramos um zoológico (Objetiva, R$ 29,90), do jornalista  Benjamin Bee. A reforma das instalações para 200 animais, na Inglaterra, era um projeto da família, incluindo sua mãe e irmãos. O livro conta ainda os últimos dias da mulher do jornalista, gravemente doente, mas entusiasta da ideia, que transforma a vida de todos os envolvidos – e inspirou um filme de Cameron Crowe, estrelado por Matt Damon.

 

ogostodocloroEm época de amores mais fluidos, o romantismo masculino demonstra sua vitalidade na belíssima graphic novel O Gosto do Cloro (Leya/Barba Negra, R$ 49,90), do francês Bastién Vives. Ao narrar o encontro de um jovem casal numa piscina pública de Paris, Vives fala sobre amor e solidão com uma sobriedade comovente. A melancolia se alterna à esperança em imagens com tons azulados, brancos e cinzentos, que renderam ao autor o Prêmio Revelação de Angoulême, em 2009, e o projetou entre os novos artistas dos quadrinhos.

Sobre Olga

Para alguns, existem deuses e religiões; minha devoção se dirige à literatura. Assim surgiu este blog, um dos milhões que nascem a cada segundo no planeta. Sem pretensões, só para compartilhar um dos prazeres solitários mais subversivos e incompreendidos de que dispomos.
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