Back Colunas Para Ler na Rede O Brasil, pelos outros

O Brasil, pelos outros

Sex, 23 de Março de 2012 21:29
E-mail Imprimir PDF

Tenho uma certa dificuldade em reconhecer meu país ou minha cidade sob ótica de quem não vive aqui. Com a proximidade da Copa do Mundo, vamos nos incomodar um pouco com a imagem externa de paraíso da sensualidade exacerbada de um povoque veste pouca roupa, gosta de música, futebol e festa. Esse olhar estrangeiro alude a essas características em análises mais ou menos compromissadas com a observação comportamental de leigos ou de acadêmicos.

dicionarioamorosoO encanto com a beleza natural do Brasil e os corpos morenos escassamente cobertos nas praias cariocas é o primeiro desses traços comuns, mas o verbete “Brasil” do Dicionário Amoroso da América Latina (Ediouro, R$ 59,90), assinado por Mario Vargas Llosa, fala da criatividade brasileira no futebol. Já o verbete sobre o Rio de Janeiro é o ensejo para que o laureado escritor peruano se mostre absolutamente extasiado com a visão de milhares de foliões dançando com pouquíssima roupa, trocando carinhos e “quase fazendo amor” sob olhos indiferentes dos que acompanham o cortejo dos blocos carnavalescos. “Serão fúteis todos os planos para controlar a libido dessa sociedade de demografia galopante que beira os 170 milhões de habitantes”, comentava Llosa, sobre uma de suas visitas à cidade, há cerca de 10 anos, concluindo que enquanto existir o carnaval carioca “a vida será melhor do que é normalmente, uma vida que, por alguns dias (…) toca os faustos do sonho e se mistura com as magias da ficção”.

 

 

dancandonasruasEm Dançando nas Ruas – Uma História do Êxtase Coletivo (Record, R$ 54,90), a jornalista americana Barbara Ehrenreich descreve a evolução de um bloco pelas areias da praia de Copacabana para ilustrar a integração democrática de estranhos movidos apenas pelo júbilo coletivo proporcionado pela dança: “Não havia nenhum objetivo naquilo. (…) era apenas a chance, da qual precisamos cada vez mais neste mundo abarrotado, de reconhecer o milagre da nossa existência simultânea em algum tipo de celebração”. Além de compartilhar o deslumbramento de Vargas Llosa com a entrega dos foliões ao carnaval, Barbara Ehrenreich defende a tese de que as elites desprezam as festas populares, das quais se aproximam apenas para garantir ganhos financeiros ou políticos. Quando a entrevistei, há cerca de um ano e meio, para o Valor Econômico, Barbara deu como prova da ojeriza das classes abastadas a essas ocasiões de júbilo coletivo, o costume “dos ricos cariocas de viajarem no Carnaval”.

 

 

comoomundofazamorEm Como o Mundo Faz Amor, (Verus, R$34,90) uma pesquisa dos hábitos amorosos em diferentes partes do globo terrestre, o jornalista Franz Wisner explica por que iniciou o projeto no Brasil.  “Com molejo e um olhar, o  Brasil nos chama e nos diz que, sim, o amor é possível”. De sua admiração pela voz sedutora da locutora Íris Lettieri no Aeroporto do Galeão até o namoro com uma brasileira, Wisner apresenta um país contraditório, onde todos se beijam em público, mas hotéis impedem a visita de mulheres aos quartos dos hóspedes estrangeiros.

 

 

howtobeacariocaA americana Priscilla Ann Goslin lançou, em 1992, How to be a carioca – the alternative guide for tourists in Rio (Editora Twocans, R$ 32), que se propunha a ser um guia alternativo para turistas no Rio de Janeiro – e que tem um olhar bastante realista para seus habitantes. O texto é divertidíssimo e trata das peculiaridades dos moradores de uma cidade onde um convite para aparecer “lá em casa” jamais deve ser tomado ao pé da letra. futebol-obrasilemcampo O título original de Futebol – O Brasil em Campo (Zahar, R$  59), explicava melhor a sensação do autor, o inglês Alex Bellos.   Football – the Brazilian Way of Life conta como os brasileiros tornaram o esporte um elemento de identidade nacional. Como Priscilla Goslin, Bellos viveu no Brasil, e não se deixa trair pelos chavões da euforia e sensualidade naturais aos nativos.

 

 

oscentrosurbanosMesmo a sobriedade do economista Edward L. Glaser não resiste ao entusiasmo com os clichês da beleza natural da orla carioca. Antes de explicar por que vê algo de bom nas favelas, em Os centros urbanos – a maior invenção da humanidade (Campus, R$ 96), ele afirma que nas praias do Rio, de clima geralmente sublime, e normalmente enfeitada por pessoas bonitas, “os cariocas parecem estar se divertindo ainda mais que os estrangeiros”. Bom para nós, não?

Sobre Olga

Para alguns, existem deuses e religiões; minha devoção se dirige à literatura. Assim surgiu este blog, um dos milhões que nascem a cada segundo no planeta. Sem pretensões, só para compartilhar um dos prazeres solitários mais subversivos e incompreendidos de que dispomos.
Esse post foi publicado em Antropologia, Comportamento, Política, Sociedade, Viagem e marcado , , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s