A colossal e faustiana dimensão da economia

Por Olga de Mello | Para o Valor, do Rio

 “Dinheiro e Magia – Uma Crítica da Economia Moderna à Luz de ‘Fausto’ de Goethe”

Gustavo Franco explica os papéis de Fausto e do demônio na “tragédia do desenvolvimento brasileiro”.

 Hans Christoph Binswanger. Trad. de Marcus Vinicius Mazzari.

Apresentação e posfácio de Gustavo Franco. Zahar. 216 págs., R$ 42,00

Eternidade, mortalidade, ciência, criação e poder são alguns dos conceitos evocados pela lenda de Fausto, o homem que vende a alma ao diabo em troca de uma vida plena de satisfações. A abrangência do tema e sua universalidade renderam numerosos estudos literários e filosóficos, além de reflexões em outros campos, entre eles o econômico. Um desses é “Dinheiro e Magia – Uma Crítica da Economia Moderna à Luz do ‘Fausto’ de Goethe”, de Hans Christoph Binswanger, que chega agora ao Brasil, com apresentação de Gustavo Franco, autor do posfácio “Fausto e a tragédia do desenvolvimento brasileiro”.

Lançado em 1985, o livro de Binswanger se ocupa da segunda parte da tragédia, publicada após a morte de Goethe, que criou três versões da história. A primeira, da juventude, é o “Fausto Zero”, retomada por Goethe em 1808, no que ficaria conhecido como “Fausto 1”, a mais importante obra do escritor. No chamado “Fausto 2”, publicado após a morte de Goethe, está, segundo Gustavo Franco, a transposição socioeconômica do indivíduo, que conhecia um momento de transição dos modelos de convivência humana, testemunhados pelo escritor ao longo de sua própria existência.
“Poucos leram a segunda parte do ‘Fausto’, extensa e complexa, que surge 60 anos depois da original, no momento em que se abandonava a cultura tradicional abstrata e se procurava o conhecimento desenvolvimentista. Goethe foi jovem num mundo medieval e, na velhice, conheceu o mundo moderno. É essa transição que ele mostra no Fausto 2”, diz Franco.
Binswanger considera “Fausto” a “mais moderna de todas as peças”, ao destacar “o fascínio criado pela economia”, explicada por Goethe como um processo alquímico na busca do ouro artificial. “Todo aquele que não consegue compreender essa alquimia, a mensagem que ‘Fausto’ de Goethe transmite, não pode entender a dimensão colossal da economia moderna”, afirma Binswanger na introdução do livro – escrito para um público que conhece o mito e a peça de Goethe.
É Mefistófeles quem inspira a criação do papel-moeda, produto da magia, que levará à instauração da economia moderna


E é para os leitores brasileiros não familiarizados com a obra de Goethe que Franco traça um histórico da lenda em torno de Johannes Faust (1480-1539), alemão que teria praticado medicina, alquimia e astrologia. Maior que o personagem real é o fictício, cujo pacto com o diabo virou tema de volumes apócrifos em alemão, consagrados na peça do inglês Christopher Marlowe, encenada nos palcos elizabethanos em 1592. Cada autor imprimiu características diferentes a Fausto, observa Franco. Enquanto o de Marlowe se arrepende do contrato com Mefistófeles, o de Goethe firma outro tipo de acordo, condicionando a entrega da alma apenas se reconhecesse que havia ficado plenamente satisfeito – algo inalcançável para quem está sempre em busca de novas emoções.

“Este Fausto vem da época de grandes descobertas em arte, ciência e economia. Ele e Mefistófeles aparecem quase como narradores de enredos novos que se delineiam no mundo iluminista, um mundo que ainda pretende resguardar a tradição cultural clássica. É Mefistófeles quem vai inspirar a criação do papel-moeda, o produto da alquimia, da magia, que levará à economia moderna”, observa Franco.

Outra discussão que Goethe levanta, e que foi aproveitada por outros autores, como Klaus Mann, está nas concessões ao mal que alguém faz durante toda a existência. “Mefisto”, de Mann, fala sobre o sucesso de um ator durante o regime nazista, calcado na trajetória real de Gustaf Gründgens, cunhado do autor. Após a Segunda Guerra Mundial, Gründgens foi absolvido das acusações de ligação com os nazistas. “A sobrevivência exige a negociação com o mal, que, naquele caso, estava representado pelo nazismo”, diz Franco.
A análise de Binswanger detalha cada movimento da peça e a relaciona com o fim da economia de subsistência, que tem objetivos finitos de satisfazer as necessidades do homem. “A economia industrial está adaptada a necessidades imaginárias, que podem ser incessantemente expandidas pela fantasia humana”, afirma Binswanger, que aponta a familiaridade de Goethe com assuntos econômicos, não só por atuar como conselheiro da corte, mas pela amizade com especialistas como Greg Sartorius, um dos principais divulgadores das ideias de Adam Smith na Alemanha.

Franco conheceu o livro de Binswanger em 1999. Ao preparar a introdução para a edição brasileira, imaginou um ensaio crítico sobre o desenvolvimento econômico sob a ótica da experiência do Brasil. A analogia com “Fausto” está no perdão por métodos questionáveis de crescimento, desde que o objetivo seja alcançado. No ensaio, ele destaca que Fausto é de uma época em que não existe mais o castigo pela curiosidade, “especialmente quando ela envolve a experiência e a realização, embora possa haver condutas reprováveis no caminho”. Tais condutas são comuns a todos os povos, que tendem a redimir-se de seus erros, justificando a obtenção de um bem maior.
“Hoje, destroçamos o ambiente. No passado, fomos lenientes com os escravocratas, com a inflação, com a desigualdade. Os meios questionáveis de se chegar a um bem maior são esquecidos, uma vez que se obtém sucesso, o que redime a todos. É o caso do político corrupto, que rouba, mas faz. No fim, ganha-se a salvação, da mesma maneira que, na cena final da segunda parte da peça, os anjos mencionam as realizações de Fausto, que seriam superiores a seu acordo com Mefistófeles”, diz Franco.
Da mesma forma que o diabo e Fausto se mostram parceiros de jornada na segunda parte da peça, a associação entre os que movimentam o capital é tão íntima que impede a escolha de um vilão na “tragédia do desenvolvimento brasileiro”, diz Franco. Mefisto tanto pode estar no setor privado, “interessado apenas nos próprios lucros e despreocupado com os custos do progresso”, enquanto Fausto ficaria no setor público, “em posição honorífica, concursado e estável, funcionário público de coração puro”, como Fausto seria o empreendedor constantemente achacado pela corrupção e pelo clientelismo de Mefisto, o burocrata que domina “a regulação, as políticas e os favores emanados do setor público”. Para Franco, separadas ou juntas, as duas combinações fazem sentido.

Sobre Olga

Para alguns, existem deuses e religiões; minha devoção se dirige à literatura. Assim surgiu este blog, um dos milhões que nascem a cada segundo no planeta. Sem pretensões, só para compartilhar um dos prazeres solitários mais subversivos e incompreendidos de que dispomos.
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