Prazer

Isso de fazer coluna sobre livros me afastou deste blog. São tantas tarefas a cumprir, tanto a ler – ou, ao menos, a folhear, que aqui virou apenas um back up da Para Ler na Rede…

Acontece isso com meus blogs. Eles vão se transformando, sendo abandonados por um mais recente. Felizmente, com os filhos e amigos nada semelhante ocorreu. Sou fiel e dedicada a todos, não importa os que precise cativar por conta do recente conhecimento…

Este tem sido um ano de muitas leituras e da constatação que, cada vez mais, leio ensaios que me entusiasmam tanto quanto romances.  No último fim de semana, acabei o Quinta Avenida, 5 da Manhã, de Sam Wasson, cujo subtítulo explica exatamente do que trata o livro: Audrey Hepburn, Bonequinha de Luxo e o Surgimento da Mulher Moderna. O livro me chegou às mãos pouco depois de eu concluir minha monografia de pós-graduação em Literatura, Arte e Pensamento Contemporâneo para a PUC-Rio. O tema foi Representações Femininas na Literatura de Entretenimento – A mulher contemporânea sob a ótica da chic lit, e eu abordei muito a mudança do comportamento feminino a partir do pós-guerra. Entremeei com a leitura de muitos livros sobre teoria, mas também muitos textos feministas. Embora eu seja mais prática que teórica, a melhor parte do curso, a mais curtida, foi exatamente a pesquisa para a monografia. Talvez porque tivesse muito que ler e descobrir, como as digressões de Virginia Woolf em Um Teto Todo Seu.

Descendo de autodidatas. A geração de meus pais mal pôde estudar. Minha mãe, órfã de militar, e meu pai, filho de operário, trabalharam desde a adolescência. Leitores compulsivos, só tiveram televisão em casa no fim dos anos 80. Gostavam de cinema, política, arte e literatura. Claro que a educação que receberam (em escolas públicas) era infinitamente superior à que hoje contratamos em colégios particulares, mas o conhecimento adquirido por eles construiu-se sobre as escolhas que fizeram. A escolha de compreender a vida pelo viés artístitico.

Ainda hoje dou mais valor ao leitor que aprecia a leitura sem analisar os processos de confecção da narrativa do que o estudioso que fez do ato de ler uma ciência intrincada. É como gostar de uma música sem conhecer harmonia, como entusiasmar-se pela beleza de uma pintura apenas pelo prazer que a profusão de cores oferecem a seu olhar. Parece até perigoso falar sobre a apreciação sem qualquer preocupação com a forma nesses tempos tão superficiais, mas estou envelhecendo e me sinto gabaritada suficientemente para optar pela alegria, pelo riso, pelo prazer, deprezando solenemente o tédio que encobre muitos estudos.

Ler, sim, mas, antes de tudo, por prazer.

Sobre Olga

Para alguns, existem deuses e religiões; minha devoção se dirige à literatura. Assim surgiu este blog, um dos milhões que nascem a cada segundo no planeta. Sem pretensões, só para compartilhar um dos prazeres solitários mais subversivos e incompreendidos de que dispomos.
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