Sobre drama, paixão, dinheiro e fé

Dom, 14 de Agosto de 2011 21:42
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Sou viciada em ler. Preciso ter um livro por perto. Ou vários. Sofro de dependência química de livros. Houve momentos na vida, com filhos pequenos, pais doentes, em que pouco li. Eram períodos estranhos, em que eu não me reconhecia. Natural é escapar do mundo com um livro na mão, seja na praia, na condução, na fila do supermercado, enquanto faço uma refeição solitária.

O hábito veio da infância, claro. Mas agravou-se no início da vida profissional, quando, como repórter, era obrigada a permanecer à espera, muitas vezes, por horas, nos gabinetes de quem entrevistaria – principalmente políticos. Hoje, desenvolvi tão imenso grau de dependência que estremeço ao imaginar ficar presa num elevador em pane sem nada ter na bolsa para ler.

Como a vida atual faz do tempo uma preciosidade, leio tudo o que cai em minhas mãos – nem que seja a famosa leitura “na diagonal”, quando o texto é superficial ou maçante. E tenho o péssimo hábito de ler diversos livros ao mesmo tempo. Alguns dos que vou citar aqui, já terminei. Outros, estou lendo – nem que seja na fila do banco. E todos valem uma boa olhada.

polanskiA vida do cineasta polonês Roman Polanski é tão dramática quanto alguns de seus filmes. Ele já fez seu relato pessoal na autobiografia Roman lançada aqui pela Record nos anos 80, que hoje se encontra apenas na Estante Virtual. Agora sai o cuidadoso trabalho de Christopher Sandford, Polanski (Nova Fronteira, R$ 59), com detalhes sobre a dura infância como judeu na Europa durante a Segunda Guerra Mundial, o assassinato de sua mulher Sharon Stone (que estava grávida) por um grupo de alucinados, a acusação de pedofilia e, hoje, o reconhecimento de sua genialidade por trás das câmeras. Mais “solta” é a autobiografia do chef britânico Gordon Ramsey, Chocolate Amargo (BestSeller, R$ 29,90), em que ele fala de uma infância difícil, pobreza e sua redenção social através da gastronomia. Ramsey ficou famoso por ser um carrasco em realities shows dentro de suas cozinhas, mas seu relato mostra que boa parte desses grandes cozinheiros adota o comportamento temperamental de popstars, talvez instigado pelas altas temperaturas no ambiente profissional.

byronPopstar do século XIX, o temperamental e arrebatado George Gordon Byron em 36 anos de vida dedicou-se a variadas paixões, incluindo um escandaloso romance com sua irmã. É da irlandesa Edna O’Brien a última biografia do poeta, cujo título define bem sua personalidade – Byron Apaixonado (Bertrand Brasil, R$ 49). Da mesma maneira, paixão é o que não falta nos personagens esquisitões criados por Rubem Fonseca e reunidos em Axilas e Outras Histórias Indecorosas (Nova Fronteira, R$ 39,90). Os contos, bem curtinhos, tratam do preconceito de nossos tempos com o humor ferino que caracteriza Fonseca, que contrabalança a observação crítica ao estilo impecável de escrever.

Divertido também é o tom de Crash – Uma Breve História da Economia – da Grécia Antiga ao Século XXI (Leya Brasil, R$ 39,90), em que o jornalista Alexandre Versignassi aborda não só o papel do dinheiro, mas a escassez dele, “a insanidade e a safadeza” na construção de um mundo mais próspero. Buscando semelhanças entre crises acontecidas em séculos – ou até milênios – diferentes, como congelamentos de preços no Brasil contemporâneo e na Roma Antiga, Versignassi apresenta a história econômica sem reverenciar os economistas ou escrever em economês.

Um dos mais importantes teóricos da atualidade, Terry Eagleton também se alinha com a resistência laica ao espiritualismo que domina o mundo. No entanto, sem a mesma virulência que dos que professam o New Atheism, ele prefere discutir as visões religiosas e o quanto de destruição é perpetrada em nome as mais diferentes crenças. O Debate sobre Deus – Razão, Fé e Revolução (Nova Fronteira, R$ 49,90) é a compilação de quatro palestras sobre religião à luz da ciência e da filosofia.

Sobre Olga

Para alguns, existem deuses e religiões; minha devoção se dirige à literatura. Assim surgiu este blog, um dos milhões que nascem a cada segundo no planeta. Sem pretensões, só para compartilhar um dos prazeres solitários mais subversivos e incompreendidos de que dispomos.
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