Para ler na rede 5

Minha vida daria um romance

Sex, 25 de Fevereiro de 2011 22:50
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Quem jamais proferiu a frase acima – ainda que apenas na imaginação – que atire a primeira pedra.  Se discrição está cada vez mais fora de moda, anacrônica como os romances europeus que usavam asteriscos (“Mme de G*****, vivia em L*****”) após iniciais para simular épocas, locais e acontecimentos reais, o momento é de proliferação de um simulacro literário dos reality shows. Relatar o cotidiano, mesmo que ele pouco tenha de extraordinário, tornou-se corriqueiro – até porque alimenta leitores ávidos por confissões – genuínas ou não – de autores que abrem seus corações publicamente.

Transformar a vida em livro aberto nem sempre rende um misery book, exemplar de gênero memorialístico que enumera provações atrás de provações, alcançando, por vezes, resultados de alta qualidade – como As Cinzas de Angela (Objetiva), que rendeu um Pulitzer, em 1996, a Frank McCourt. As novas confissões nem sempre tratam da desgraça indiscutível, como abusos sexuais, fome, guerra.   Boa parte dessas narrativas parte da desilusão amorosa, seguida pela redenção obtida através de novos amores, ofícios, conhecimentos.

Foi esta a fórmula seguida pela americana Elizabeth Gilbert, autora do bestseller Comer, Rezar, Amar (Objetiva, R$  44,90), há quase 150 semanas nas listas de livros mais vendidos no Brasil, milhões de exemplares comprados no mundo inteiro.  A saga da escritora trintona que se divorcia e tira um ano sabático para conhecer a comida italiana na Itália, meditar na Índia e se apaixonar em Bali  é um apanhado de suas experiências pessoais – e de seu deslumbramento perante as descobertas do mundo além das fronteiras de seu país. Ela retoma as memórias recentes em Comprometida (Objetiva, R$ 34,90), depois que seu companheiro, o brasileiro Felipe, é proibido de utilizar seu visto de turista para encontrá-la nos Estados Unidos.  Divorciado de uma australiana, Felipe carrega o trauma da separação como um fracasso pessoal de difícil superação, no melhor estilo do Hemisfério Norte. Enquanto se desdobra em justificativas para a legalização da união, Elizabeth faz um estudo sobre o casamento em diversas sociedades e sua evolução histórica – o que torna o livro bem mais interessante do que as declarações de amor ao – agora, oficialmente, – marido.

Desanimada com um emprego ruim e uma vidinha sem graça, a americana Julie Powell procurava preencher sua rotina tediosa ao dedicar-se à hercúlea tarefa de cozinhar todos os pratos descritos por Julia Child no livro que teria apresentado a culinária francesa aos Estados Unidos do pós-guerra.  Os esforços descritos em blog foram transformados no simpático Julia & Julie (Record, R$ 39,90), servindo ainda de base para filme de Norah Ephron – ela mesma uma craque em contar suas desventuras com bastante ironia no divertidíssimo O Amor é Fogo (Rocco, R$ 26). Julia Powell volta a seu personagem favorito – ela própria – em Destrinchando (Record, R$ 52,90), no qual aborda sua nova tentativa de encontrar o sentido da vida trabalhando como ajudante de açougueiro, após ter um caso extraconjugal e ser abandonada pelo marido traído.

O fim do casamento, o vazio existencial após a conclusão de um grande projeto profissional e a crise da meia idade levaram o jornalista nova-iorquino Bob Spitz a passar dois meses em descobertas gastronômicas na França e Itália. aprendizdecozinheiroAprendiz de cozinheiro (Zahar, R$ 39,90) traz as receitas que o escritor recolheu nas cozinhas européias e observações que vão além de seu interesse pela cozinha dos dois países, tornando a leitura mais do que o relato de uma viagem de formação e autodescoberta. Para ser mais e mais saboreado por leitores mundo afora, só falta virar filme – um destino certo e mais que honroso para essas histórias de gente comum.

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Sobre Olga

Para alguns, existem deuses e religiões; minha devoção se dirige à literatura. Assim surgiu este blog, um dos milhões que nascem a cada segundo no planeta. Sem pretensões, só para compartilhar um dos prazeres solitários mais subversivos e incompreendidos de que dispomos.
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