Por trás dos portões

As Viúvas das Quintas-Feiras, da argentina Cintia Piñero,  foi um dos livros que mais me impressionaram nos últimos anos. Li em 2005 e o recomendei exaustivamente. Agora, com o filme de Marcelo Piñeyro, é muito provável que a recepção discreta pelos leitores brasileiros seja ultrapassada pela de quem viu a história no cinema.

Peguei As Viúvas para reler, com aquela angústia de quem gosta tanto de literatura quanto de cinema, temendo que um não estivesse à altura do outro. É muito difícil considerar cada um isoladamente. O livro, claro, é soberano. Fora a trama, a narrativa tem uma estrutura bem balanceada, pensada, deliciosa. Nesta época de “transmidiatismo”, um deveria complementar o outro ou poderia ser apresentado como obra única?

Prefiro pensar nos dois isoladamente, já que as adaptações de romances para filmes nem sempre são tão bem sucedidas. Inevitável é comparar. Pena é que não seja lançado aqui o romance do também argentino Eduardo Sacheri que inspirou O Segredo dos Seus Olhos.

O que As Viúvas tem de notável, além de sua forma? Como as últimas produções argentinas, tanto em cinema quanto em literatura, a história traz um bom apanhado da vida contemporânea, sofrida, consumista, atormentada. No caso argentino, a debacle financeira, que atualmente é passado no Brasil, mas que para as gerações que conheceram a hiper-inflação sempre existe como um fantasma pronto a se reencarnar. Nossos traumas recentes estão mais ligados à violência urbana, que servem de tema a toda representação artística brasileira atual. Não que se prefira um a outro, já que um pode gerar e alimentar o outro. A diferença, talvez esteja na educação argentina, que pode até ter piorado, mas não alcançou ainda o nível de indigência com o qual nos contentamos e nos enganamos, e que se reflete, diretamente, nos cronistas contemporâneos.

As Viúvas das Quintas-Feiras seriam, à primeira vista, quatro dondocas de classe média alta, que vivem com suas famílias imperfeitas em condomínios fechados, onde pensam desfrutar da tranquilidade que muito dinheiro e seguranças particulares podem garantir. Só que nada é exatamente como aparenta. Uma trabalha para sustentar a família, outra sofre de depressão, uma é vítima de agressões, a outra desconhece a realidade. Os maridos tentam sobreviver, perplexos, dentro de um mundo que desaba. Se for transposto para a Barra da Tijuca e jogar um pouco do deboche natural aos brasileiros, vira uma história daqui. E, guardadas as proporções, pode ser ambientada em qualquer parte do mundo, pois até na Escandinávia deve haver quem acredita no isolamento como maneira de se proteger dos perigos da vida dos demais reles mortais. O mais interessante: não são personagens rasos, representando o bem, o mal ou a esperança de dias melhores. Eles estão atônitos, tentando se agarrar a ilusões acessíveis a poucos.

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Sobre Olga

Para alguns, existem deuses e religiões; minha devoção se dirige à literatura. Assim surgiu este blog, um dos milhões que nascem a cada segundo no planeta. Sem pretensões, só para compartilhar um dos prazeres solitários mais subversivos e incompreendidos de que dispomos.
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