Novos jornalismos

Quem critica os jornalistas (os demais mortais, em geral), tende a afirmar que a categoria é especialista em generalidades. Em países onde a profissão é exercida com alguma dignidade financeira, existe um grupo de privilegiados que têm se dedicado a escrever sobre comportamento. São pesquisas, observações que caberiam em reportagens mais extensas, com informações de fácil apreensão.
1e11695f-29bf-4c4d-94de-bbfae2f178c2Alguns desses jornalistas, como o britânico Malcolm Gladwell, aos poucos deixam a atividade inicial para se transformarem em autores respeitados em outras áreas. Com Blink, a Decisão Num Piscar de Olhos (Rocco), em que mostrava os estudos sobre as habilidades intuitivas, Gladwell atingiu um público ávido por aconselhamento: os leitores do chamado light business, que tanto podem trazer fábulas mescladas a lições de gerenciamento de empresas, quanto análises comportamentais sobre potenciais clientes, equipes, empregadores e mercado. Em O Ponto da Virada (Sextante), que já fora lançado no Brasil, anteriormente, pela Rocco, ele aborda as formas de comunicação bem sucedidas, o que atribui muito mais a pessoas do que a planejamentos marquetinológicos – o que talvez não agrade tanto assim às empresas.
Há outros jornalistas que correm atrás de material que não cabe nas páginas de revistas ou jornais. Entre eles estão os observadores que escrevem livros de viagem, como o americano Perry Garfinkel, que 1b362fad-ee41-4f69-844c-f6ccc2d7c2a5detalhou em Buda ou Desapego (Rocco) a série escrita para a revista National Geographic, que bancou sua viagem pela Europa e pela Ásia, seguindo trajetos consagrados por Sidarta ou por seus adeptos no planeta. Também americano, Eric Weiner correu mundo para ver como os povos definiam a felicidade.29f1e413-d1f5-4288-b7b9-aaac7bf2b173 Em A Geografia da Felicidade (Agir), há muito do olhar americano para o outro, que vê os demais terráqueos como seres anômalos, apenas por não cultuarem os mesmos hábitos alimentares. Mesmo assim, ele alinhava conclusões honestas e cândidas sobre as diferentes formas de encarar a vida.
Um dos últimos lançamentos desses jornalistas que investigam os comportamentos ao redor do globo é Na Ponta da Língua – As Linguagens do Adultério do Japão aos EUA (Record), da (tinha que ser) norte-americana Pamela Druckerman. Radicada em Paris, ela já viveu em diversos lugares, entre eles São Paulo. Talvez daí venha sua desculpa, no prólogo, por não incluir o Brasil em sua pesquisa. Intrigada com o mito da falta de culpa dos franceses em relação ao adultério – e a expiação pública que os americanos tornam qualquer traição conjugal, vide o caso Clinton -, ela foi à Rússia, África do Sul, França, Japão e China, além de procurar grupos de judeus ortodoxos e de americanos de diversas faixas etárias para ver o que eles pensam dos casos extraconjugais.
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Caem alguns mitos, surgem outros, tudo sem comprovação científica. Os dados são baseados nas entrevistas de Pamela, que teve poucas pesquisas sobre o tema para comprovar sua tese principal: as mulheres, no mundo inteiro, continuam traindo por amor e os homens para demonstrar poder ou virilidade. Ah, sim, as camadas mais instruídas da população traem menos que os pobres.
Podem acusar de generalistas, esses novos jornalismos. Porém, eles estão respondendo à ansiedade de constatações que, por vezes, a ciência custa muito a fornecer – e quando o faz, geralmente, é em prosa aborrecida.

Sobre Olga

Para alguns, existem deuses e religiões; minha devoção se dirige à literatura. Assim surgiu este blog, um dos milhões que nascem a cada segundo no planeta. Sem pretensões, só para compartilhar um dos prazeres solitários mais subversivos e incompreendidos de que dispomos.
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