Roma S.A.

Entrevistei Stanley Bing por e-mail para o Valor Econômico há cerca de um ano. Sabia que ele era jornalista, que escrevia sob pseudônimo, que era divertido, simpático. Trocamos e-mails jocosos e… só depois eu descobri que ele é o vice-presidente executivo de Comunicação da CBS, uma das grandes redes de televisão americanas. De nossos e-mails saiu esta matéria, em cima do lançamento do irreverente Roma S.A.: Ascensão e Queda da Primeira Corporação Multinacional

Pode ser útil observar Nero e Calígula

Por Olga de Mello, para o Valor, do Rio
21/08/2008

Roma S.A.

A primeira corporação mundial nasceu como uma pequena empresa familiar, que, através de planejamento racional, pôde estender e manter sua sua influência sobre povos de todo o planeta. Assim é a “Roma S.A.” descrita na irreverente análise do escritor americano Stanley Bing sobre os primeiros 1.200 anos de uma história repleta de líderes neuróticos, disputas sangrentas pelo poder e incompetentes amalucados alçados a altos cargos por questões políticas ou laços familiares. Para o autor, Roma permaneceu como a única cidade ocidental a atravessar milênios no centro dos acontecimentos políticos e sociais internacionais graças à capacidade de se reinventar e promover uma reorganização corporativa no século IV, com a criação da Igreja Católica Romana, que hoje conta com mais de um bilhão de adeptos no mundo inteiro. “Roma percebeu que o cristianismo poderia fornecer a força emocional e espiritual necessária para manter vivo o espírito romano até hoje”, disse Bing em entrevista ao Valor.

O irônico Bing surgiu há cerca de duas décadas como pseudônimo do escritor, enquanto fazia carreira na rede de televisão CBS, da qual é vice-presidente executivo de comunicação, sob a identidade, real, de Gil Schwartz. Hoje, ele escreve uma coluna na “Fortune”, enfocando o universo corporativo com muito sarcasmo e ceticismo, sem acreditar que seus próprios textos sejam vistos como guias de gestão. “Quem tem poder, geralmente, não se interessa pelas outras pessoas. Líderes, gerentes, executivos até podem se inspirar com a leitura de grandes exemplos de brutalidade, egoísmo e sucesso, mas fazem tudo de sua própria maneira, conforme determinam suas personalidades rígidas, controladoras e infantis. Existe uma loucura institucionalizada e o comportamento irracional é comum entre quem tem autoridade. Não é difícil encontrar descendentes de Calígula nas primeiras páginas dos jornais do mundo todo.”

A vocação corporativa de Roma, afirma Bing, mostra-se desde a fundação lendária pelos gêmeos Rômulo e Remo, por volta de 700 a.C. Segundo o autor, todas as corporações começam com mitos, apresentando seus criadores sendo amamentados por uma loba ou montando computadores pessoais em uma garagem na Califórnia, como Bill Gates e Nolan Bushnell. “Antes de Roma, houve diferentes organizações sociais, cidades e exércitos, mas só Roma tem as primeiras operações corporativas. Um escritório central delegava poderes que fluíam diretamente da alta gerência para as linhas de operação no campo. Os povos conquistados eram integrados à empresa, agraciados com uma nova cidadania por determinação dos quadros superiores. Roma permitia operações locais para a geração e manutenção de receitas associadas, além de tomar parte do lucro operacional para beneficiar o centro corporativo. Outras civilizações conquistaram territórios, queimaram e saquearam cidades inimigas. Somente Roma transformou o mundo em um gigantesco estado corporativo, com uma estrutura definida, recriando-se diversas vezes até se transformar em uma organização religiosa, mantendo sua sede na cidade”, acredita Bing.

A modesta empresa tocada por dois irmãos que se odiavam cresceu com a nomeação de uma diretoria – o Senado – e a ascensão de líderes qualificados para administrar os negócios. Nos últimos tempos da República, diz Bing, surgiu um novo tipo de líder, o magnata, que cria uma cultura própria, imprimindo mudanças com muita criatividade, para garantir o poder.

“Há pessoas cujos nomes são sinônimos de suas empresas, que não têm escrúpulos em derrubar quem ameace sua autoridade. Geralmente, são extremamente criativas e dinâmicas. Stálin era um magnata, enquanto Putin não passa de um burocrata poderoso. George W. Bush é apenas útil para a classe que o levou àquele cargo. Tem momentos de irracionalidade, mas não é criativo. Robert Mugabe é um magnata, como Steve Jobs, da Apple, Bill Gates da Microsoft, Louis Gerstner, da IBM. Esses homens inventam, transformam, só obedecem a suas próprias leis, vivem de acordo com parâmetros que eles próprios traçam. São os césares da atualidade”, diz Bing, que declara seu interesse por regimes totalitários – e a possibilidade de explorar situações ridículas que eles proporcionam. Em um próximo livro, ele gostaria de analisar o modelo de gestão firmado por Stálin: “Era um sociopata com um senso de humor mordaz, de quem era perigoso ser amigo ou inimigo. Ele se redefinia constantemente e tinha características que reconhecemos em mais líderes mundiais e altos executivos do que gostaríamos de admitir. Stalin é um modelo até hoje seguido em boa parte do mundo.”

Sobre Olga

Para alguns, existem deuses e religiões; minha devoção se dirige à literatura. Assim surgiu este blog, um dos milhões que nascem a cada segundo no planeta. Sem pretensões, só para compartilhar um dos prazeres solitários mais subversivos e incompreendidos de que dispomos.
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