Amores Literários

stilllive… há dias em que você se sente tão inspirada, tão cheia de palavras e imagens, que escreve com uma total noção de leveza, escreve como quem sobrevoa o horizonte, surpreendendo a si mesma com o que escreveu… Às vezes acontece de você escrever muito acima da sua capacidade, de escrever melhor do que sabe escrever. E então não quer sair da cadeira… “

Rosa Montero, A Louca da Casa,  livro, que, na verdade, é um passeio/papo sobre a arte de escrever e o amor aos livros.

Esta paixão, este vício que adquiri em família, não transmiti a meus filhos, com, talvez, uma exceção. É difícil, hoje em dia, competir com tantas informações imediatas e tanto conhecimento circunstancial. Há pouco tempo, conversava com uma amiga sobre um livro pelo qual ela havia se encantado. Lembrei-me, então,  que datava de mais de um ano minha última paixão literária, Possessão, de A.S. Byatt, uma escritora que eu descobrira num livreto de contos, Histórias de Matisse, e, depois, devido ao Anjos e Insetos, filme interessantíssimo, baseado em uma de suas novelas. Quando cheguei ao Possessão, foi uma paixonite mesmo. Simplesmente não me separava do livro, andava com ele pelo País, carregava-o em viagens.
A primeira vez que ouvi falar neste affair com livros foi numa conversa de minha mãe com uma amiga, Lícia. Ambas estavam lendo Cem Anos de Solidão, e nada, nada mesmo era mais empolgante que o livro naquele momento. Muitos anos mais tarde, numa madrugada, comecei a ler a saga dos Buendia e acabei quando o dia raiou. Foi uma das minhas poucas noites de insônia naquela fase da vida, excelentemente aproveitada, embora o Garcia Marques que mais me envolvesse ainda estivesse para ser descoberto por mim, com a Crônica de uma Morte Anunciada, lido numa viagem entre Ipanema e a Praça Onze, num 464, indo trabalhar no Globo (eu leio rápido mesmo).
Atualmente, intercalo Minha Vida, Uma Farsa com O Menino que seguiu Ripley, com a mesma avidez. Meu primeiro Ripley foi Um Passo em Falso, que lia no Globo, comentando o mau caratismo impressionante do protagonista com um colega, que me aconselhava: “Larga esse homem que ele não presta!”. Era uma edição da Brasiliense, da coleção Cantadas Literárias, se não me engano, que, logo depois, lançou O Amigo Americano. Só então juntei os pauzinhos e liguei Patricia Highsmith a seu maior personagem. Eu já gostava muito de policiais, mas pouco conhecia do gênero com profundidade, mesmo tendo passado a adolescência lendo a Coleção Amarela, de Papai, Agatha Christie, Maurice Leblanc, Erle Stanley Gardner, Simenon, Chandler e Hammet. Só quando percebi que Ripley era o canalha interpretado por Alain Delon no Sol por Testemunha, recordei outra conversa de Lícia e minha mãe.  Lícia contava que, diferentemente do filme, Ripley seguia impune. Mamãe estranhou e Lícia explicou que o Ripley do livro era fascinante, apaixonante, simpático.
A revelação sobre a “identidade” desses personagens e sua fama literária é igual a de  descobrir que seus amigos se conhecem de outras circunstâncias. Dá aquela sensação de que o mundo é pequeno como uma cidade do interior.
Estou com muita vontade de me apaixonar perdidamente por algum livro, andar com ele em tudo quanto é canto, dividir com aquele volume a minha existência. Os outros viciados me compreenderão.

(d’aprés meu blog Arenas Cariocas, publicado em novembro de 2005).

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Sobre Olga

Para alguns, existem deuses e religiões; minha devoção se dirige à literatura. Assim surgiu este blog, um dos milhões que nascem a cada segundo no planeta. Sem pretensões, só para compartilhar um dos prazeres solitários mais subversivos e incompreendidos de que dispomos.
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