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Entre dois amores

Por Olga de Mello, para o Valor, do Rio
16/10/2009
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Uma plantação de café é algo absorvente e se gruda nas pessoas, não havendo nunca momentos ociosos: está-se sempre ligeiramente atrasado no trabalho a fazer”.

A Fazenda Africana, Isak Dinesen

A descrição da celebrada escritora dinamarquesa Isak Dinesen bem poderia ser assinada por Frances de Pontes Peebles. Há cinco meses administrando a fazenda de café de sua família, em Taquaritinga do Norte, no Planalto da Borborema, em Pernambuco, Frances não tem nenhuma pretensão de tornar-se uma Dinesen dos trópicos. “Espero que minha fazenda seja mais bem-sucedida do que a dela. Na literatura, minha ousadia não chega a tanto”, disse em entrevista por telefone ao Valor, na semana em que chegou às livrarias brasileiras a tradução de seu romance de estreia, “A Costureira e o Cangaceiro” (Nova Fronteira, 624 págs., R$ 69,90).

Isak Dinesen era o pseudônimo de Karen Blixen (1845-1992), que morou por 16 anos no Quênia, onde teve uma fazenda de café. Desistiu da empreitada em 1931 e voltou para a Dinamarca para dedicar-se à literatura. O autobiográfico “A Fazenda Africana” tornou-se seu livro mais conhecido, principalmente depois da versão cinematográfica de Sidney Pollack, com Meryl Streep no papel da escritora. Gostava de escrever em inglês e depois os textos eram vertidos para seu idioma nativo. Outro de seus contos a lhe render popularidade por adaptação para o cinema foi “A Festa de Babette”, de Gabriel Axel.

Além da dedicação ao café e à literatura, Frances, como a dinamarquesa, também escreve em inglês. Nascida no Recife há 30 anos e definindo-se como alguém com “um pé no Brasil e outro nos Estados Unidos”, a brasileira sente que sua fluência em português está restrita à fala – com um forte sotaque pernambucano. “Não tenho segurança para me aventurar em textos maiores que os de cartas ou e-mails”, explica Frances, que não interferiu na tradução de Maria Helena Rouanet para o romance. Na versão original fez questão de inserir termos em português.

“Não existe tradução para alpercatas, cangaço ou jagunço. Não são sandálias de couro, bandidos nem vaqueiros, têm outro significado. Então, pus notas explicativas e deixei tudo como se fala aqui, até porque pretendia reproduzir um pouco da musicalidade do palavreado polissilábico português”, conta Frances, que viveu no Brasil até os 5 anos, quando a família se mudou para os Estados Unidos para acompanhar o pai, David Peebles, engenheiro americano.

O contato estreito com a família materna, em Pernambuco, foi sua base para criar uma história genuinamente brasileira. Seguindo a saga de duas irmãs órfãs e costureiras, Frances mostra tanto o Brasil urbano, por meio da sociedade do Recife da época, que buscava acompanhar a modernidade europeia no período anterior à Segunda Guerra Mundial, e o agreste nordestino, onde o tempo resistia às novidades. Depois de formar-se em Letras pela Universidade do Texas, recebeu uma bolsa da Fundação Fulbright para pesquisar o cangaço e escrever um romance histórico totalmente fictício, em que o único personagem real é Getúlio Vargas. “Até os sobrenomes são inventados, pois não queria nenhuma associação com gente que viveu na região.”

O fascínio pelo universo do cangaço vem da infância. Em Taquaritinga ouvia boatos sobre vizinhos que teriam sido cangaceiros. “Eu tinha um medo danado de um tal de seu Vitorino, que teria sido do bando do temível Antonio Silvino. Hoje o cangaço é folclore e os cangaceiros têm aura de heróis, mas quem viveu aqueles tempos sentia pavor deles. Por mais que os cangaceiros fizessem frente ao poder dos coronéis, eles eram perigosos. As famílias escondiam as filhas, já que muitas meninas de 14 anos eram sequestradas pelos cangaceiros. E, mesmo que não sofressem violência alguma, eles ainda tinham que hospedar ou ceder as casas para os bandos”, contou Frances.

A pesquisa histórica à qual se dedicou durante quatro anos e meio incluiu entrevistas com moradores de Taquaritinga, que eram jovens na época do fim do cangaço: “Os relatos deles forneceram o tom de veracidade necessário ao romance. Eu queria criar os meus cangaceiros, que têm características de gente que existiu realmente, só que tudo bem misturado, de forma a ninguém ser reconhecido. As lembranças dessas pessoas me ajudaram a fazer a transposição para aquele mundo que acabou”.

Traçando um paralelo entre a trajetória das irmãs – uma que vive um casamento de conveniência no Recife, a outra, levada por cangaceiros, ganhando notoriedade por sua força dentro do bando -, Frances quis mostrar que as normas rígidas pautavam o comportamento de todos os grupos sociais. “Qualquer traição era punida com a morte. O adultério era proibido. Pouco se sabe do cotidiano das mulheres do cangaço, que entregavam os filhos recém-nascidos aos padres no sertão para que fossem criados por outras famílias. Era uma vida muito perigosa, arriscada, porém a angústia também existia para quem sofria o preconceito da sociedade rica no meio urbano, obrigada a cumprir rituais de luto, mesmo que não sentisse a dor da perda pela morte”, relatou.

A versão brasileira de “A Costureira e o Cangaceiro” exigiu um corte de quase cem páginas. Frances Peebles reconhece que o romance, atualmente com 600 páginas, ainda é bastante extenso. Mesmo assim, conquistou o público feminino. “Apesar do tema, o livro foi apontado como um dos favoritos pelas leitoras da revista ‘Elle’, o que me surpreendeu”, contou a escritora, que não revela o próximo tema a explorar literariamente. Por ora, a prioridade é a fazenda em Taquaritinga, onde pretende permanecer, no mínimo, por cinco anos – o prazo necessário para estabelecer a plantação de café orgânico.

Ela garante que não seguirá o exemplo de Isak Dinesen, narrando sua vivência na direção da fazenda: “Escrever não ficção é abrir sua intimidade, que nem sempre é tão interessante assim. Mexemos com máquinas, andamos o dia inteiro. Estamos ainda aprendendo a tocar o negócio”, explica Frances, que tem como companheiros na empreitada o marido, a irmã e o cunhado.

O trabalho incessante limita a vida social dos dois casais, que ocupam casas diferentes no mesmo terreno. Levantam-se pouco depois do nascer do sol e passam o dia coordenando as atividades dos 17 empregados, entre elas a coleta de mel de colmeias de abelhas e os cuidados com as criações de porcos e de cabras, que fornecem os fertilizantes naturais para o solo. Acabam de plantar quatro mil mudas de pau-brasil na região. Segundo Frances, não há nenhum arrependimento por haver trocado a sofisticada Chicago pela pacata Taquaritinga: “Aqui é minha casa, minha referência de infância, o lugar onde pretendo envelhecer. Queremos criar mais do que uma fonte de renda para a família, trazendo uma inspiração para o desenvolvimento sustentável da região. Tudo é novidade e aprendizado. A vida ficou mais simples, não há televisão na fazenda. Mesmo assim, não há como nos isolarmos do mundo. Temos internet”.

Nobel

Nada posso falar de Herta Müller. Só li um conto dela, numa coletânea de contos alemães.
Mais uma vez, esnobaram a Joyce Carol Oates e o Vargas Llosa, que nem era cotado, mas está sempre na lista.
Este ano, não sei se gostei do Nobel. 20091009090034339288i

Hoje, no Valor Econômico, saiu esta matéria minha. Payback é ótimo!

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A crise financeira internacional mal havia estourado, em outubro do ano passado, quando a escritora canadense Margaret Atwood lançava “Payback – Dívida e o Lado Sombrio da Riqueza” (Rocco, preço ainda não definido) – que chega nos próximos dias às livrarias brasileiras. Originalmente uma coletânea de cinco palestras tratando do endividamento sob a ótica da literatura, da psicologia, da teologia e até da ecologia, o livro foi um sucesso de crítica e de vendas, possivelmente impulsionadas pela situação da época. A autora cansou-se de repetir que não havia antevisto nenhuma derrocada econômica e o lançamento coincidira com uma exigência da editora.

Ela própria já havia escrito sobre o colapso financeiro na véspera da invasão do Iraque. “A crise era certamente previsível e muitos a previram. Guerras, principalmente as que têm campanhas como a de Napoleão na Rússia, estão entre as primeiras causas de endividamento das nações”, disse a escritora em entrevista ao Valor, durante sua viagem à Europa para promover o último livro “O Ano da Inundação”.

Reconhecida como uma das principais personalidades literárias da atualidade, vencedora do Booker Prize pelo romance “O Assassino Cego”, aos 68 anos Margaret Atwood transita com destreza entre diferentes gêneros ficcionais, chegando a mesclar, na mesma novela, histórias paralelas de suspense e ficção científica.

No novo romance ela cria uma distopia, como já fizera com a sociedade totalitária apresentada em “O Conto da Aia”. Desta vez, o mundo assolado por desastres climáticos é o cenário descrito. Militante ambiental respeitada, ela se cercou de cuidados para que a turnê promocional do novo livro fosse o “mais verde possível”. Adotou alimentação vegetariana, cuidou de hospedar-se ou de fazer eventos em locais que tivessem uma política de conservação ambiental, atravessou o Atlântico Norte de navio e preferiu usar trens a automóveis, a fim de reduzir as emissões de carbono, já que “essas viagens tiram energia não apenas do autor”.

A preocupação com as agressões ao planeta vem de berço. Na infância, viveu com a família em reservas florestais. Ressalta, no entanto, que não era uma fuga da vida urbana, apenas a consequência do trabalho do pai, biólogo. “Não ficávamos nas florestas durante o inverno, não era uma utopia. No entanto, há evidências de que crianças que crescem sem contato com a natureza têm problemas de desenvolvimento. Isso faz sentido se considerarmos que nossa história neste planeta foi sempre ligada à natureza. Adão e Eva foram expulsos de um jardim, não de um edifício!”, diz a escritora, que, depois do casamento com o romancista Graeme Gibson, chegou a morar por alguns anos em uma fazenda. Voltaram para Toronto quando a filha do casal entrou na escola e perceberam que ela perderia muitas horas em trânsito até chegar ao colégio.

A militância ambiental também perpassa “Payback”, já que a humanidade, segundo a autora, está em dívida com o planeta. O interesse em conservar a natureza aos poucos substitui os ideais yuppies de fama e riqueza, acredita. “De alguma maneira, a maré mudou. Um grande número de pessoas desistiu de enriquecer para salvar o planeta. Alguns até tentam combinar esses dois sonhos. O problema é que o dinheiro sozinho é inútil. É apenas um símbolo que podemos traçar por produtos reais e perde seu valor no momento em que as reservas de alimento se reduzem. Ninguém pode comer papel e metal”.

As armadilhas do consumo fácil também já não conquistam tanta gente. “Já existe uma mudança no comportamento financeiro. As dívidas pessoais têm se reduzido, há esforços para acabar com a inadimplência”, observa Margaret.

Embora alerte no livro para a relação quase infantil que boa parte dos consumidores tem quanto à utilização dos cartões de crédito – contraindo compromissos que não podem ser honrados no futuro, buscando na compra a satisfação de um prazer imediato -, a escritora não encara a dívida como um mal em si: “Usada construtivamente, a dívida ajuda a sociedade crescer. Cartões de crédito são excelentes, desde que pagos regularmente. Apenas quando não há nenhum tipo de restrição ou regras justas é que os credores se tornam vendedores, incentivadores de novas dívidas, obtendo lucros por meio do prejuízo de quem não pode pagar o que deve. E então surgem as falências e derrocadas do tipo a que acabamos de assistir”.

Criada na década de 40, Margaret recorda em “Payback” que falar sobre dinheiro era quase um tabu. A discrição sobre o assunto – e em relação a outros temas como sexo e religião – foi gradualmente substituída por uma exuberância para tratá-los. Até chegar a crise de 2008. “A partir daí, começou-se a falar em dinheiro com desânimo”, comenta a escritora, uma crítica da ostentação da riqueza, mesmo se usada em prol da arte ou de causas humanitárias. “É apenas uma forma de marcar status. Em algumas sociedades, quem faz doações é mais respeitado. Talvez os Medici patrocinassem artistas porque genuinamente amavam a arte, que também é um símbolo de status. É como se dissessem: olhem quanto eu posso gastar.”

O interesse pelos diferentes aspectos da dívida surgiu a partir da observação de “um tema que está à nossa volta, é só começar a olhar”. A exploração do assunto por programas de televisão mostrando famílias destroçadas por causa do comportamento irresponsável de um de seus membros, livros de autoajuda e anúncios de especialistas em finanças pessoais que ensinam o devedor a se recuperar financeiramente chamaram a sua atenção. Isso denotaria que o endividamento teria “superado sua fase inofensiva (…) e voltado a ser pecado”, tomando um posto já ocupado pela gordura, pelo cigarro, pela bebida e pela prostituição.

Ao buscar na literatura tramas que abordassem a preocupação com dinheiro – ou com sua falta -, Margaret Atwood constatou que o tema era mais recorrente do que enredos que privilegiavam envolvimentos amorosos. Os registros sobre negociações patrimoniais aparecem nas mais antigas manifestações literárias da humanidade, incluindo aí a “Bíblia”. A pobreza e o endividamento atormentam os personagens em quase todos os gêneros literários, notadamente os românticos, e são atraentes para boa parte dos leitores, diz a escritora.

As desventuras financeiras de personagens, como em “O Moinho do Rio Floss”, de George Elliot, ou as de quase todas as heroínas românticas de Jane Austen, passando pelo “Conto de Natal”, de Charles Dickens, têm função de movimentar os enredos, mesmo quando tratam do desespero e da vergonha dos devedores.

“Sexo e amor [como temas] são mais interessantes quando se é jovem, porque você ainda está procurando por eles e não sabe como vai se desenrolar sua história pessoal. Na época em que se chega aos 70 anos, se você teve sorte, é capaz de ter uma visão mais cósmica”, afirma. De acordo com ela, o amor e o dinheiro estiveram firmemente entrelaçados durante a era romântica. “Até o poeta John Keats escreveu ‘O amor numa cabana a pão e água é – que o amor nos perdoe – cinzas e poeira’. O melhor para uma jovem era se casar com um homem rico que amasse; o pior que poderia ocorrer era o casamento com um homem pobre e não amado. Riqueza com amor era ruim, pobreza com amor, aceitável, mas não a miséria. Ter um emprego não era possível para membros das classes médias ou das classes médias altas, que não tinham habilidades. Em meu romance ‘O Assassino Cego’, esse dilema é encarado por Íris e Laura”, lembra.

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Escrevemos a partir de uma necessidade de comunicação e de comunhão com os demais, para denunciar o que dói e compartilhar o que dá alegria. Escrevemos contra a nossa própria solidão e a solidão dos outros. Supomos que a literatura transmite conhecimento e atua sobre a linguagem e a conduta de quem a recebe; que nos ajuda a conhecer-nos melhor para salvar-nos juntos. Mas “os demais” e “os outros” são termos demasiado vagos; e em tempos de crise, tempos de definição, a ambigüidade pode se parecer demais à mentira. Escrevemos, na realidade, para as pessoas com cuja sorte, ou azar, nos sentimos identificados. Os que comem mal, os que dormem mal, os rebeldes e humilhados desta terra, e a maioria deles não sabe ler. Entre a minoria que sabe, quantos dispõem de dinheiro para comprar livros? Pode-se resolver esta contradição proclamando que escrevemos para essa cômoda abstração chamada “massa”?

Eduardo Galeano, um escritor bom de bola.

Pequenos prazeres

Luciana Conti, quando conheci, era uma mãe de gatos. Distribuía filhotes a todos os colegas nas redações por onde passava. Tempos depois, decidiu criar seus próprios gatinhos e tornou-se blogueira.
Gato de sofá é uma graça de blog amoroso de mãe leitora, que dissemina o vírus por seus filhotes. Lá estão diversos volumes que li para os meus, muitos anos atrás.
Foi muito duro o dia em que separei os livrinhos que eram para dar, outros para guardar e acabaram-se as estantes com obras infantis nos quartos de meus meninos. Foi o fim de um ciclo e me trouxe uma sensação de ninho vazio horrorosa, igual ao dia em que descobri que teatrinho não era mais para aquela garotada de onze, doze anos, que assistia a uma peça da Karen Accioly no Teatro do Jockey. A gente percebe que perdeu um pouco da função que exerceu durante tanto tempo. 21312545
Entre os livros que restaram estão muitos dos que Luciana descreve no blog. Acho que de três ela ainda não falou, que li e reli à exaustão para meus então pequenos. Uma é A Cama de Mamãe, em que os filhos se apossam da cama da mãe para brincar, durante o dia, e para dormir agarrados, à noite. Uma realidade latino-americana, claro. Outros são a série de Babette Cole, que escreve sobre temas dolorosos, como separação dos pais, ou fala sobre a vida sexual, de forma engraçadíssima e agradável para as crianças. Cabelinhos em lugares engraçados é para crianças bem pequenas e aguarda novos leitores.
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Outros hits nessa literatura infantil nem tão contemporânea assim são os livros de Audrey e Don Wood, como Os Meus Porquinhos, O Rei Bigodeira, A Palavra Feia de Alberto ou A Bruxa Salomé – esta proscrita das leituras, porque Oto tinha pavor da história (para deleite dos irmãos, que o ameaçavam com o livro, até que escondi).
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Falo dos escritores gringos porque não há nem necessidade de mencionar Ruth Rocha ou Ana Maria Machado. Ou na Angela Lago, que conheci lendo para meus filhos e acabou tornando-se minha amiga, depois de uma apresentação virtual, através do Orkut.
Fiquei triste também porque nenhum dos meus filhos teve interesse em ler Mary Poppins ou os livros de Laura Ingalls, que tanto encantaram minha infância. E ao descobrir que o linguajar de Monteiro Lobato tornara-se obsoleto – embora os enredos, não.
Ler para os filhos pode não fazer os leitores de hoje, dispersos entre distrações que exigem concentração menor. Mas ainda é uma delícia a ser saboreada pelos pais.

Tempos vindouros

Geralmente não leio ficção científica. Causa-me uma tremenda angústia aquele universo onde máquinas tentam – e conseguem – suplantar uma humanidade desprovida de sentimentos, sobrevivendo em estados totalitários, nos quais o bem comum prevalece sobre qualquer laço afetivo ou carnal. Há algumas variações sobre os mesmos temas. Nem sempre há robôs, porém, quase sempre, um estado opressor, falta de alimentos, desgraças e desesperança. Por isso sempre fui fã de Ray Bradbury, que conseguia extrair beleza dos cenários mais estéreis ou assustadores.
Com alguma má vontade, confesso, peguei Genesis, do neo-zelandês Bernard Beckett. Como é livro da Intrínseca, uma das minhas editoras favoritas, tanto pela escolha de autores novos e de temas instigantes – fora ter emplacado cinco títulos nas listas de best sellers há mais que um ano (a série Crepúsculo e A Menina que roubava Livros) – quanto pela beleza dos volumes, com capas caprichadas em edições bem-cuidadas, fui dar uma folheada rápída. E me vi enredada.
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Não que o tema seja novo – jovem que se submete a exames de conhecimento para os quais se preparou profundamente -, nem que a narrativa tenha algo extraordinarimente fora do comum. É até previsível, para leitores experientes – em leitura ou em vida. Mas Beckett tem aquela famosa “pegada”, que nos leva a só despregar da leitura no ponto final. Não é à toa que ganhou o prêmio de melhor romance para público jovem em seu país.
O futuro triste que aguarda o homem intriga autores desde sempre. O exemplo clássico é o de H.G. Wells, passando por Aldous Huxley e Bioy Casares. Uma pequena obra impressionante é A Praga Escarlate, de Jack London, que mostra um mundo devastado depois de uma epidemia que matou milhões e acabou com a civilização então conhecida. Lançado em 1916, não poderia ser mais atual quando vivemoa o pavor de uma gripe altamente contagiosa e perigosa. Pior que a praga é o planeta que sobra. Sobrevivem os mais fortes e os que são imunes ao vírus. A força bruta torna-se mais necessária que o conhecimento e, além de vidas, a doença mata as formas de comunicação. Os jovens não sabem ler e se expressam com um vocabulário tosco. Uma bela metáfora para tempos que parecem estar sempre para chegar. recomenda7

Imaginamos nossos filhos como seres perfeitos. Quando nascem, aguardamos aflitos os testes de Apgar e do pezinho para garantir seu desenvolvimento pleno. E depois, passamos o resto da vida brigando com o moleque que prefere passar horas de papo furado com os amigos – ao vivo, por telefone ou by Web – em vez de estudar.
Alguns pais não conhecem tais agruras, mas convivem com a eterna certeza de que seus filhos jamais evoluirão intelectualmente. Dois deles tiveram a ousadia de se expor, nesta era exuberantemente confessional, através de relatos duros sobre a tristeza, a vergonha e o amor que inspiram essas crianças eternamente imaturas.
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Em O Filho Eterno (Record), Cristóvão Tezza descreve toda a dor do proceso de aceitação do filho com síndrome de Down. Usa palavras cruas que só os pais conhecem e que as mães nunca poderiam se atrever a empregar sob pena de serem renegadas enquanto biologicamente predestinas à maternidade. O nascimento do menino e o choque com o diagnóstico da anomalia é contado tão alucinadamente que causa mal estar. A chaga social da deficiência parece suplantar qualquer outra sensação daquele pai que só demonstra a paixão pelo filho quando o menino se perde. O livro ganhou uma imensidão de prêmios literários.
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Outra leitura incômoda é Aonde a Gente Vai, Papai?(Intrínseca), do jornalista francês Jean-Loouis Fournier, que trata de seus dois filhos deficientes. Escrito através de pequenas observações, ele traz uma visão cáustica sobre a paternidade indesejada de filhos imperfeitos. Vendeu horrores (500 mil exemplares) na França, ganhou um prêmio de prestígio e gerou um site da ex-mulher sobre o que ela chama de romance ficcional. Um dos meninos já morreu, o outro não cresceu muito fisicamente. Uma irmã mais nova é bela, normal e, segundo Fournier, o orgulho da família. A sensação de derrota social é mascarada por um sarcasmo imenso diante da vida, que Tezza encara de maneira mais sofrida.
Não há rendenção aparente para esses pais, aquele desfecho de telefilme americano, com todos conformados e felizes em torno da árvore de Natal. Essas leituras, a gente acaba sempre com um nó na garganta, um peso no peito, olhos úmidos. Um desconforto difícil de esquecer ao virar a última página.

Pujança editorial

O brasileiro não lê, mas livro continua sendo um bom negócio no país. O maior grupo editorial português, o Leya acaba de lançar uma editora própria, brasileira, depois de vãs tentativas de adquirir alguma já existente pelas plagas daqui.
Agora, o maior grupo editorial brasileiro, o Record, anuncia seu novo selo, o BestBusiness, especializado em livros de economia e negócios, que deverá ter dois lançamentos ao mês.
E em tempos de e-book, a Record, que imprime cerca de 5 milhões de volumes por ano, pretende dobrar sua capacidade produtiva com um novo equipamento de impressão.
Alguém deve ler nesta terra. Ou comprar livro pra enfeitar estantes.tarsila-do-amaral-beatriz-lendo-oleo-tela-1965

SOS Biblioteca

Vi lá no blog do Galeno Amorim.

A Associação de Moradores de Vargem Grande, comunidade do Rio de Janeiro, está tentando montar uma biblioteca para o público que não tem acesso a livros no bairro. Além de livros, faltam móveis para abrigar o material, conforme noticiou O Globo. Mesas e cadeiras para as atividades com as crianças também são bem-vindas. Os interessados em ajudar podem entrar em contato com a associação pelo telefone: (21) 2428-1568.

Sempre um será melhor que o outro, creio. “Gostei mais do livro” é mais comum que “gostei mais do filme”.
Esta semana vi dois filmes baseados em livros. Um dos livros, Aconteceu em Woodstock (Record), li numa manhã de sábado, mês passado. Uma delícia, divertido, os bastidores do maior festival de rock da história (em qualidade, mais do que em quantidade de dias ou de público). Hoje, assisti ao filme de Ang Lee. Uma boa adaptação, mas que talvez tenha deixado de lado o furor que significou Woodstock. Ao menos foi o que percebi pelas expressões de alguns dos coleguinhas na cabine de imprensa, pré-Festival do Rio. Uma menina, bem jovem, não se mostrou comovida nem entusiasmada pelo filme. Ele não me entusiasmou também, mas só ter Imelda Stauton roubando toda e qualquer cena em que aparece já é de encher corações e mentes do público.
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Ladra de cenas também seria Meryl Streep em Julie & Julia, se nesta nova dobradinha da diva com Nora Ephron não estivesse o maravilhoso Stanley Tucci – secundados, infelizmente em poucas cenas, por Jane Lynch. O filme é uma sucessão de reencontros de La Streep – com Ephron, com Tucci e com Amy Adams. E também a retomada de Nora Ephron de um de seus temas favoritos – comida – , levantando a história de Julia Child, a americana grandona que coletou receitas francesas para donas-de-casa norte-americanas que não dispunham de serviçais encarregados do preparo dos quitutes.
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O filme é docinho, menorzinho, engraçadinho. O livro, que eu comecei a ler ontem, ainda não me pegou de jeito. O filme abre mais o apetite. E a exuberância de Meryl é perfeita, assim como algumas adaptações cinematográficas para obras literárias. Entre as melhores estariam Tess, de Roman Polanski, em cima de Tess D’Uberville, de Thomas Hardy, O Colecionador, de William Wyler, quase a cópia da novela de John Fowles, O Mensageiro, de Joseph Losey, em cima do original de L.P. Hartley, O Diário de Bridget Jones, de Sharon Maguire, mas que teve acompanhamento da autora da história, Helen Fielding, sem contar clássicos como A Leste do Eden, Vinhas da Ira, O Sol Por Testemunha E O Talentoso Ripley, além de todos os baseados em histórias do Nick Hornby.
Falo dos que vi e li.
O bom é poder conferir as duas versões. E guardar a que prefere para boas discussões.

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