Desconcertante como topar com um ex-amante, é dolorido reler um livro e não reconhecer nele o mesmo fulgor do primeiro encontro. Tal experiência vem me ocorrendo repetidamente nos últimos tempos. Algo que eu já sofrera ao retomar uma leitura de Monteiro Lobato e perceber que, sim, a linguagem caíra em desuso, mas não o enredo – prova é que o Sítio do Picapau Amarelo continua um sucesso como série de televisão.
O vergão mais recente havia sido causado na releitura de Arranca-me a Vida, de Angeles Mastretta, um dos livros que mais me impressionou quando li, na década de 80. Quase 30 anos depois, peguei-o para confrontar com o filmeco mexicano que fizeram baseado na história. Desta vez, não me causou qualquer impacto, porém eu talvez buscasse palavras com uma força esmaecida pelas imagens da tela ainda gravadas em minhas retinas.
E aí, chego ao terceiro gosto doce-amargo, ao pegar 1968 – o ano que não terminou (Planeta). Neste intervalo de 40 anos, ele se acabou, sim, embora sobrevivam aqueles personagens, retratados novamente pelo Zuenir Ventura, ano passado, em 1968 – O que fizemos de nós. Li a primeira vez na década de 80 também. Adorei, principalmente porque anos antes havia devorado Os Carbonários, de Alfredo Sirkis, e O que é isso, companheiro, de Fernando Gabeira. O livro de Zuenir me parecia mais objetivo, na época.
Hoje, não. Parece mais o relato sobre o que um grupo de pessoas viveu naquele tempo. Algo que o segundo livro assume no título e ainda traz excelentes observações sobre as mudanças sócio-político-culturais dessas quatro décadas. Como 1968 virou realmente história, fico com uma leitura mais abrangente, o livro de Regina Zappa e Ernesto Soto 1968 – Eles só queriam mudar o mundo (Zahar). Escrito quase em forma de almanaque, contando mês a mês o que ocorreu naquele ano em diferentes campos, tanto político, cultural como esportivo, o livro conta ainda com a colaboração de uma gama diversa de jornalistas, alguns testemunhas dos acontecimentos, outros sequer nascidos, como Eduardo Graça e Pedro Butcher.

Os livros do Zuenir não sairão de minha prateleira, claro. Passarão pelo crivo de jovens leitores, sequiosos de compreender aquele momento por quem viveu e fez a hora, sem esperar acontecer. Outros desapontamentos virão, tenho certeza. E alguns livros ganharão força a cada releitura. Se a dor for intensa, a cura sempre pode estar em Machado, Garcia Marquez ou Vargas Llosa. Ou Cortazar. E, eternamente, Manuel Bandeira.
Oi, Olga, é sempre um prazer passar por aqui e ler suas postagens. bjs. Luciana Conti