Geralmente não leio ficção científica. Causa-me uma tremenda angústia aquele universo onde máquinas tentam – e conseguem – suplantar uma humanidade desprovida de sentimentos, sobrevivendo em estados totalitários, nos quais o bem comum prevalece sobre qualquer laço afetivo ou carnal. Há algumas variações sobre os mesmos temas. Nem sempre há robôs, porém, quase sempre, um estado opressor, falta de alimentos, desgraças e desesperança. Por isso sempre fui fã de Ray Bradbury, que conseguia extrair beleza dos cenários mais estéreis ou assustadores.
Com alguma má vontade, confesso, peguei Genesis, do neo-zelandês Bernard Beckett. Como é livro da Intrínseca, uma das minhas editoras favoritas, tanto pela escolha de autores novos e de temas instigantes – fora ter emplacado cinco títulos nas listas de best sellers há mais que um ano (a série Crepúsculo e A Menina que roubava Livros) – quanto pela beleza dos volumes, com capas caprichadas em edições bem-cuidadas, fui dar uma folheada rápída. E me vi enredada.

Não que o tema seja novo – jovem que se submete a exames de conhecimento para os quais se preparou profundamente -, nem que a narrativa tenha algo extraordinarimente fora do comum. É até previsível, para leitores experientes – em leitura ou em vida. Mas Beckett tem aquela famosa “pegada”, que nos leva a só despregar da leitura no ponto final. Não é à toa que ganhou o prêmio de melhor romance para público jovem em seu país.
O futuro triste que aguarda o homem intriga autores desde sempre. O exemplo clássico é o de H.G. Wells, passando por Aldous Huxley e Bioy Casares. Uma pequena obra impressionante é A Praga Escarlate, de Jack London, que mostra um mundo devastado depois de uma epidemia que matou milhões e acabou com a civilização então conhecida. Lançado em 1916, não poderia ser mais atual quando vivemoa o pavor de uma gripe altamente contagiosa e perigosa. Pior que a praga é o planeta que sobra. Sobrevivem os mais fortes e os que são imunes ao vírus. A força bruta torna-se mais necessária que o conhecimento e, além de vidas, a doença mata as formas de comunicação. Os jovens não sabem ler e se expressam com um vocabulário tosco. Uma bela metáfora para tempos que parecem estar sempre para chegar.
Tempos vindouros
27/09/2009 por Olga