Assim como as comédias românticas do cinema, a literatura voltada para o entretenimento feminino mudou um bocado nos últimos anos, revitalizada pelo mega bestseller O Diário de Bridget Jones. Há cerca de dois anos, escrevi a matéria que está aqui embaixo para o Valor Econômico.
O quadro continua semelhante, com a proliferação de personagens em série, como Tasha Harris e Becky Bloom, enquanto a precursora Bridget foi aposentada por Helen Fielding, que a dotou de um bebê do canalha Daniel Cleaver, para desespero do bom-moço Mark Darcy, encerrando, assim, a coluna semanal no jornal The Independent. Parece que a escritora também desistiu de continuar escrevendo e preferiu aproveitar a vida de milionária que os livros e as adaptações para o cinema lhe garantiram.
As herdeiras de Bridget Jones não são tão engraçadas quanto a original, porém criaram uma geração de fãs de chick-lit, que se deleitam com historietas cômicas e românticas, mesmo com algumas nuances, como as apresentadas pela irlandesa Marian Keyes (Melancia), a quem entrevistei aqui no Copacabana Palace, que faz graça com as trapalhadas amorosas de suas heroínas, mas também dá pinceladas em problemas sociais, além de mencionar as compulsões modernas por compras, sexo, drogas e bad boys. As cinderelas amadurecem, como ela mesmo reconheceu quando conversamos. A entrevista de Keyes vai em outro post, abaixo também.
De Cinderela a Bridget Jones
As heroínas românticas se modernizam e o gênero “chick lit”, ou literatura “mulherzinha”, conquista uma legião cada vez maior de leitoras no Brasil
Olga de Mello
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Vem dos contos de fadas a figura da heroína romântica que sofre na mão de vilões e é resgatada de seu triste destino por um homem audaz, que lhe concede a recompensa com o casamento e o amor eterno. Os contos atuais já não têm tantas promessas de felicidade, mas as narrativas sobre jovens que enfrentam percalços sem desanimar até encontrarem um príncipe encantado continuam fazendo sucesso entre leitoras de todas as idades. Desdenhado pela crítica especializada como um gênero subliterário, o chamado romance rosa transformou-se na “chick lit” – ou literatura “mulherzinha”, no Brasil – e ganhou vigor no fim do século XX, quando “O Diário de Bridget Jones” foi um best-seller mundial, contando as desventuras da atrapalhada trintona inglesa, que, como toda heroína romântica, almeja um final feliz ao lado de um homem idealizado.
Com mais de 10 milhões de exemplares vendidos no mundo inteiro, mais de 100 mil só no Brasil, a inglesa Helen Fielding montou sua novela com a estrutura do clássico “Orgulho e Preconceito”, de Jane Austen. A sutil e irônica crítica social de Jane foi substituída por uma veia cômica histriônica, mostrando que a sociedade inglesa ainda vê o casamento como o destino natural das mulheres. A maior façanha de Helen, no entanto, foi tirar o folhetim romântico de seus esconderijos em gavetas de cômodas ou mesas de cabeceira para conquistar seu espaço nas estantes sem causar qualquer constrangimento às leitoras.
O sucesso desse modelo de personagem manifesta o simples desejo de obter na cultura popular uma satisfação inviável na vida real, acha a americana Laura Kipnis, autora de “Contra o Amor – Uma Polêmica”. Ela lembra que o arquétipo da heroína romântica não foi derrubado sequer pelas quatro protagonistas da série “Sex and the City”, baseadas em personagens criados por Candance Bushnell na novela “Quatro Louras”. As quatro “mocinhas” chegam ao fim da série casadas ou mantendo um relacionamento duradouro com seus namorados, formando casais quase antagônicos, derrubando barreiras sociais e etárias, indo de encontro ao anseio do público por finais felizes que dificilmente acontecem na vida real. Laura, que participará na Bienal do Livro do debate “Ensaio sobre o amor na literatura”, acredita que os relacionamentos reais são minados pela promessa de que o romance e o amor suprirão todas as exigências que a vida faz. O sucesso da “chick lit” estaria, então, em fornecer aos leitores o sonho de que o amor consegue superar qualquer frustração na vida, mesmo “numa época em que parecemos viver um momento de transição quanto às expectativas românticas e nas formas de relacionamento”, diz a escritora, que tem diversos estudos sobre política sexual e cultura contemporânea.
Como de cada dez livros vendidos no Brasil, seis são adquiridos por mulheres, não causa surpresa o interesse pelo gênero. A popularidade da literatura feminina no país fica marcada a partir de 1935, quando a Companhia Editora Nacional começou a publicar a Biblioteca das Moças, um sucesso até a década de 60, com 158 títulos de diversos autores, tendo como expoentes as obras de M. Delly, pseudônimo de Frédéric e Jeanne Marie de La Rosiére, um casal de irmãos franceses que invariavelmente criavam histórias sobre jovens belas e pobres apaixonadas por heróis ricos, belos e aristocratas. A diferença para os títulos atuais é que os romances ingênuos, sem qualquer insinuação de sensualidade, destinavam-se a adolescentes, não a mulheres adultas, hoje o público-alvo da “chick lit”. Nos anos 70 e 80, a literatura “mulherzinha” ficou praticamente restrita às bancas de jornal, com autores só conhecidos pelas leitoras do gênero.
Para a diretora editorial do grupo Record, Luciana Villas-Boas, houve uma evolução significativa na literatura feminina: “A literatura rosa era muito escapista, com enredos em locais exóticos e uma linguagem melodramática. Desde os anos 90, ela está ligada à realidade de mulheres que trabalham fora, sem deixar de valorizar o contexto romântico. Já temos divorciadas na faixa dos 40 entre as personagens da ‘chick lit’”. Muito antes de publicar “Bridget Jones” no Brasil, a Record já tinha as popularíssimas Bárbara Taylor Bradford e Danielle Steel entre seus autores. Em média, o grupo publica 28 novos títulos de literatura feminina ao ano, cerca de 10% do total de seus lançamentos – incluindo aí a série “Diários da Princesa”, de Meg Cabot, destinada ao público adolescente.
As narrativas sobre a amizade e primeiros amores foram reunidas pela editora Rocco na Coleção Rosa Choque, que tem entre seus títulos os livros das séries “Irmandade das Calças Viajantes” e “Angel”, este, seguindo a fórmula de humor com heroínas atrapalhadas à la Bridget Jones. Na mesma coleção estão os livros de uma admiradora confessa do gênero, Thalita Rebouças, autora de “Tudo por um Pop Star”, “Tudo por Um Namorado” e “Fala Sério, Mãe”, que já vendeu mais de 20 mil exemplares. Sem pretensão educativa, ela evita temas polêmicos como sexo ou gravidez: “Quero entreter e fazer rir. Eu quero falar do menino bonito, do professor que faz as meninas suspirarem. Não é escapismo, é a realidade da adolescência, das meninas de 11 a 16 anos, que, graças à Internet, dão retorno sobre os livros e pedem que eu continue escrevendo as aventuras das personagens que criei”, conta Thalita.
Outra leitora de “chick lit”, Michelle Abreu Vivas, debruçou-se sobre o tema para criar um dos raros estudos sobre o assunto no Brasil. Sua tese de mestrado em lingüística na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro foi “A Literatura Mulherzinha: a Construção de Feminilidades nas Tirinhas da Série Mulheres Alteradas”. “As charges da cartunista Maitena enfocam as mesmas mulheres que estão em ‘Bridget Jones’ ou ‘Melancia’, com profissão e carreira definidas, mas em busca da realização afetiva. Elas vivem dilemas que as mulheres de hoje conhecem bem, o descompasso amoroso, a dupla jornada de trabalho. O interessante é que isso é visto de forma leve, crítica e bem humorada, num verdadeiro anestésico para a alma, mostrando que há como dar a volta por cima de uma realidade difícil e ainda se divertir”, acredita Michelle.
