Alguns livros são iguais a pessoas com quem sentimos imediata afinidade – e intimidade – no momento em que travamos o primeiro contato.
Com os Mortos Não se Brinca (Suma de Letras/Objetiva), de Andreu Martin e Jaume Ribera, é um desses livros. Policial extremamente irônico, deixa o leitor completamente à vontade no ambiente de uma agência de detetives com especialidade em flagrantes de adultério. Os personagens são delineados a partir da bem-humorada ótica do protagonista, o investigador Àngel Esquius, que apresenta a trama de forma tradicional: a chegada da cliente, no melhor estilo pulp/noir.
É bom conhecer policiais que oxigenam o gênero. Este foi escrito em catalão e recebeu prêmios específicos para romances policiais no idioma. Como foi o que me inspirou a abrir este blog, vai daqui um trecho para dar o tempero combinado pelo psicólogo Martin e o jornalista Ribera – que também escrevem histórias-em-quadrinhos.
“Por culpa de uma pistola, Octavi não era agente policial. Dez anos antes, fora aprovado no curso, mas depois, durante o período de treinamento, dedicou-se a ir pelas discotecas com a pistola regulamentar bem visível sob o paletó aberto. Pensava que a arma atuaria como um chamariz na hora de paquenar. No fim das contas, seus chefes ficaram sabendo e o colocaram para fora. Mas era dos que não aprendiam.
E dos que não se calavam.
Vinte minutos depois das cinco, aquele chato estava nos disparando uma conferência sobre tudo o que havia investigado da Felícia Fochs. Sabia de memória sua filmografia e a letra de seu último sucesso como cantora, “Vamos brincar de papai-e-mamãe”, e estava em condições de desmentir com documentos nas mãos a pérfida infâmia segundo a qual a atriz tinha operado os lábios e os seios. “